Quando da passagem da Rainha Elizabeth II, falei aqui dos Países em que ainda hoje a Inglaterra e o rei mantêm um certo “predomínio” e influência, e, que inclusive, esse domínio e influência poderia se estender ao Brasil, caso voltássemos a viver no regime monárquico.
Hoje, vou continuar falando da Inglaterra, mas um assunto ‘quase diferente’ daquele. Em conversa com um amigo, ele me confidenciou que nunca conseguiu entender a diferença existente entre Inglaterra, Grã-Bretanha e Reino Unido.
Segundo ele, era tudo a mesma coisa, mas que tudo era diferente, e, isso ‘embanana´ a compreensão de quem é quem nesse jogo de tabuleiro.
Para poder compreender essa diferença, precisamos fazer um zigue-zague na linha da História para que possamos chegar a configuração e compreensão atual do mapa das ilhas que compõem o Reino Unido, a Grã-Bretanha e a Inglaterra.
De início, voltemos ao ano de 312 d. C., nesse ano, o Imperador Romano Constantino, se converteu ao Cristianismo e determinou que dali em diante, todos os povos do Império deveriam ser Cristãos, pois segundo ele, havia recebido uma mensagem de Deus que se seu exército lutasse com uma cruz pitada em seus escudos, sairiam vencedores.
Verdade ou não, o fato é que desenharam a cruz, foram para a guerra, lutaram e venceram, daí a conversão dele ao Cristianismo.
Com a conversão, Constantino passou a ser “aconselhado” pelo representante Cristão na terra, o Papa; mais liberdades começaram a surgir no Império, e mais e mais povos começaram a chegar ao Império ou voltar para suas terras que antes estavam sob domínio de Roma, uma vez que quase havia acabado as perseguições a outros povos.
Com esse retorno dos povos, tivemos a “invasão germânica” no Império, causando o colapso dele em 476 d. C. quando Rômulo Augusto, Imperador Romano, foi deposto por Odoacro, líder de um dos povos germânicos.
A partir desse fato, o que antes era o imenso Império Romano, passou a ser duas regiões: o Império Romano do Oriente, com capital em Constantinopla, fechado para o Ocidente e que duraria até o ano de 1493; e o Império Romano do Ocidente, que não tinha mais um poder centralizado na figura do Imperador, pois esse não mais existia.
No que era o Império Romano do Ocidente, havia a aglomeração de povos: os romanos que irão dá origem a Itália; gregos à Grécia; bretões, à França e Inglaterra; hunos a Hungria; vândalos ao norte da África; germânicos a Alemanha e Áustria; visigodos a Espanha; ostrogodos ao Norte da Itália e da Grécia; francos à França; lombardos à França; anglo-saxões à Inglaterra; gauleses, que depois serão os galeses ao País de Gales; bascos à Espanha; árabes ao Oriente Médio; judeus a Israel e Palestina; bretões à Inglaterra; alamanos a Alemanha; eslavos à Iugoslávia; burgúndios à França e suervos a Portugal.
Com tantos povos vivendo na região e sem um poder central, era comum a existência de conflitos entre eles por terras, fazendo com que muitos desses povos se dispersassem para outras regiões, como os árabes que vão para o Oriente Médio; os vândalos que foram para o Norte da África e lá ocuparam Cartago e toda costa norte do Continente; os anglo-saxões, bretões e galeses que foram para uma ilha longe do continente e ali se estabeleceram.
No que hoje é a Europa Continental, os líderes de cada um desse povos se uniram a Igreja Católica e lá instalaram “reinos”; uma parceria muito útil para os dois lados, pois a Igreja Católica garantia a conversão desses povos “bárbaros” ao Cristianismo e recebia terras dos reis, e do outro lado aos governantes que recebiam da Igreja Católica a chancela do “poder divino” consciencializando esses povos de que aqueles reis estavam “ungidos” pelo poder e bênçãos de Deus para lhes governar, o que fez surgir o fator hereditário para a perpetuação das famílias nobres no poder por séculos.
Já os povos anglo-saxões, bretões e galeses, que não aceitaram esse tipo de dominação, procuraram se alojar em ilhas isoladas do Continente e lá fundaram seus reinos com uma certa liberdade em relação aos que viviam na Europa Continental.
Ocorre que mesmo buscando viver isolados do Continente, estes reinos sempre mantiveram relações comerciais, políticas, econômicas e posteriormente religiosa com continente europeu.
Assim, em 927 d. C., surge o Reino da Inglaterra com a capital em Londres; o Reino da Escócia em 843 d. C., com a capital em Edimburgo; o Reino do País de Gales em 1055 d. C., com a capital em Cardiff, anexado a Inglaterra em 1535; e, por fim o Reino da Irlanda que surgiu em 1171 d. C, com capital em Dublin.
Esses quatro Reinos viveram com sua autonomia política independente uns dos outros até 1707 quando houve a formação da Grã-Bretanha, uma vez que o soberano inglês passou a ser soberano tanto na Inglaterra quanto da Escócia e do País de Gales.
Mesmo com a formação da Grã-Bretanha, os reinos mantinham sua independência um dos outros, apenas reconheciam o rei da Inglaterra como sendo seu rei também, uma vez que esses reinos eram reinados parlamentarista, ou seja, há eleições para um Parlamento e escolha de um Primeiro Ministro, tal qual é na Inglaterra nos dias de hoje.
Por sua vez, o Reino Unido surgiu em 1801, quando a Irlanda passou a fazer parte da Grã-Bretanha e permanecendo no grupo até 1919, quando houve a proclamação da Independência da Irlanda, sendo que a Irlanda do Norte permaneceu sob o poderio da Inglaterra.
Assim, no conjunto de ilhas temos cinco países: Inglaterra, País de Gales, Escócia, Irlanda do Norte e Irlanda.
A Grã-Bretanha é união de: Inglaterra, País de Gales e Escócia, sob julgo da Inglaterra, mas com independência política para o Parlamento.
Por sua vez, o Reino Unido é a união de Inglaterra, País de Gales, Escócia e a Irlanda do Norte, sob julgo da Inglaterra, mas com independência política para o Parlamento.
Como visto, o isolamento pretendido pelos povos que foram habitar as ilhas não surtiu tanto efeito, seja ele econômico, político, social ou religioso, pois todos os reinos que se instalaram nas Ilhas, foram todos eles governados por monarquias hereditárias com as mesmas práticas econômicas que eram praticadas no continente, e, mais importantes: todos foram reinos católicos até a primeira metade do século XVI, quando a própria Inglaterra reinada por Henrique VIII deixou o julgo da Igreja Católica e formou sua própria religião, a Igreja Anglicana.
Então, quando se falar em Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte, lembre-se que cada um deles tem sua autonomia política no quesito CHEFE DE ESTADO, mas não tem a mesma autonomia no quesito CHEFE DE GOVERNO. Para melhor explicar os dois conceitos, utilizarei como exemplo três países com sistemas e regimes de governos diferentes: Brasil (presidencialismo), França (semipresidencialismo) e Inglaterra (parlamentarista).
Primeiro, é bom salientar que os dois conceitos se diferenciam pelos poderes com que cada um dos dois modelos concede poderes, funções e responsabilidades a seus “governantes”.
Os Chefes de Estado têm mais uma importância de conselho, simbólica e muito representativa na vida do seu povo; já os Chefes de Poderes exercem atividades de comando e direcionamento da Nação.
O Chefe de Estado tem aquele “ar” de simbolismo para seu povo e sua função é condecorar pessoas e entidades como veteranos de guerra, receber visitantes que são outros Chefes de Estados em visita a seu país, participar de eventos sociais, esportivos e de caridade; bom lembrar que em alguns sistemas, esse Chefe de Estado pode aconselhar o Chefe de Poder, como é o caso da Inglaterra em que o rei é o conselheiro do Primeiro Ministro, inclusive podendo assinar tratados e até dissolver o Parlamento.
Caso semelhante ao da Inglaterra é a França, apenas com a diferença de que na França não tem um rei, mas sim um presidente que é eleito periodicamente, como no Brasil, mas que lá o presidente exercer conselho sobre o Primeiro Ministro, que é menos importante que na Inglaterra, e pode dissolver o Parlamento, como na Inglaterra, que é feito pelo Primeiro Ministro.
A legitimação do poder do Chefe de Estado varia de país para país, pois na Inglaterra é por hereditariedade, no Vaticano pela “Vontade Divina” através da escolha dos Cardeais após a morte do Papa, no Brasil através do voto para Presidente, em ditadura através da força.
Uma grande particularidade é a França, pois no semipresidencialismo de lá o Chefe de Estado é o presidente que é eleito pelo voto do povo, mas este tem a prerrogativa de escolher o Chefe de Governo e até mesmo de dissolver o Parlamento, como já falado antes.
Por sua vez, o Chefe de Governo é quem dirige o país e desenvolve políticas públicas para o bem do povo, mantendo boas relações com o Legislativo e o Judiciário; esse sistema é usado em países presidencialistas como o Brasil em que o Chefe de Estado e o Chefe de Governo é o Presidente da República.
Nesse modelo, o Chefe de Governo também exerce as funções do Chefe de Estado com sua representatividade para receber representantes de outros países, conceder condecorações e demais funções.
Nos países em que adotam o parlamentarismo, é o Chefe de Governo quem comanda o Parlamento, daí o Primeiro Ministro ser escolhido entre os membros do Parlamento.
Assim, os países das ilhas, resolveram se unir a Inglaterra e viver no sistema de Parlamento sob o julgo do rei da Inglaterra, onde esses países tem seus Chefe de Governo, mas que o Chefe de Estado é o rei da Inglaterra, fato que lhes concede vantagens econômicas e financeiras por receber soldos do Chefe de Estado que é o Rei Inglês.
José Salatiel Cordeiro Ramalho
Gr.˙. 31
12 de junho de 2024
