Com o declínio do Império Romano, a Igreja Católica passou a ditar normas e regras a serem seguidas, uma vez que esta era a religião oficial em toda a Europa.
Com o passar dos tempos, já no período da Grandes Navegações, a Igreja Católica exercia grande, ou total, influência sobre os reis europeus; um exemplo disso foi o Tratado de Tordesilhas que foi engendrado pela Igreja Católica para que os reis de Portugal e Espanha não brigassem mais.
Essa influência só veio a diminuir com a Proclamação da República em 1889 e o consequente fim do Império no Brasil, pois neste período a Igreja e o Estado andavam de mãos dadas.
Após derrubar o Império e instaurar a República no Brasil, o Marechal Deodoro da Fonseca, buscou distanciar o Estado da Igreja, mesmo que nossa primeira Constituição falasse em Estado Católico.
Vale lembrar que a grande maioria dos republicanos no Brasil eram maçons, e, ao defenderem o afastamento entre Estado e Igreja, notadamente por que os maçons defendiam a liberdade religiosa, as autoridades católicas no Brasil não viam os republicanos com bons olhos; e, eles pensavam assim com razão, pois era o Estado Imperial quem sustentava todo o clero, inclusive pagando salários alto para eles.
O fato é que a República havia sido proclamada e já era um passo muito grande que havia sido dado para pode retroceder.
Com isso, aumentou a oposição da Igreja com o Estado Republicano chegando ao ponto de termos a chamada Questão Religiosa, onde membros católicos e políticos voltados ao catolicismo se opunham tanto a Maçonaria quanto às chamadas religiões protestantes aqui no Brasil.
Em termos de maçonaria, a Igreja passou a excomungar e a não realizar casamentos e batizados de membros da maçonaria. Já em termos de pressão, a Igreja não permitia que o Estado concedesse direitos e autorizações de outras igrejas funcionarem no Brasil.
Nesse sentindo, uma das primeiras religiões chamadas protestantes a se instalar em solo brasileiro foram os Batistas, vindos dos Estados Unidos que estavam em fins da Guerra de Secessão.
As primeiras comunidades a se instalarem no Brasil foram nos Estados de Mato Grosso e São Paulo.
O destaque foi a cidade de Santa Bárbara, que depois passou a se chamar santa Bárbara d`Oeste; lá o Pastor Robert Poter Thomas, dizem que era maçom, juntamente com outros 5 pastores batista maçons, fundaram duas Igrejas Batistas, uma em Santa Bárbara e outra na cidade de Americana, além de terem fundado a Loja Maçônica George Washington.
Quem conta um fato curioso é a escritora Betty Antunes de Oliveira no seu livro “A Maçonaria e o Cristianismo”, onde na página 249 ela relata que o Pastor Robert Thomas consagrou ao ministério Batista o ex-padre Antônio Teixeira de Albuquerque, sendo este batizado pelo Pastor no salão da referida Loja Maçônica.
Para alguns, isso pode soar como um absurdo, mas não é, pois, a própria Maçonaria moderna, tem seu surgimento com protestantes na Alemanha, Inglaterra e Estados Unidos, uma vez que nestes países, por não sofrerem influência católica, a maçonaria era praticada livremente.
O maior documento maçom, foi idealizado por um protestante inglês chamado de James Anderson, que era presbiteriano. Ele organizou a estruturação da Maçonaria, que de origem a chamada Grande Loja Unida de Londres, que é quem dirige os maçons no mundo todo.
Aqui no Brasil, eram os maçons que detinham o poder de imprensa, que cediam espaço em seus jornais para que os protestantes pudessem fazer divulgação de suas crenças e dos cultos, e, faziam isso por achar que a Igreja Católica não deveria impor que o Estado determinasse a crença religiosa de seus cidadãos.
“De fato, batistas e maçons tinham ideais semelhantes no que se refere ao liberalismo e à necessidade de se combater a religião católica enquanto opositora dos ideais de liberdade individual. Em consequência, muitos batistas membros das comunidades batistas também foram maçons, já que não encontravam incompatibilidades entre a crença religiosa e a prática maçônica”. (Ademar Alves da Silva, página 44)
Aqui na Paraíba não foi diferente, pois a Diocese da Paraíba, juntamente com as autoridades políticas não permitiam a constituição de Igrejas Protestantes, notadamente na capital do Estado.
A própria Igreja Batista já realizava cultos em solo paraibano desde 1914, sendo estes realizados na casa de seus membros. Segundo registros, a Primeira Igreja Batista de João Pessoa foi organizada no dia 19 de janeiro de 1914, com nome de Igreja Batista da Paraíba do Norte, sob a autoridade do missionário David Luke Hamilton e pelo pastor João Borges da Rocha, na residência de Julieta e Manoel Pires, situada na Rua do Melão, atual Rua Beaupaire Rohan.
Depois a Igreja passou a funcionar no bairro de Jaguaribe, na rua Índio Piragibe, onde ficou até 1954, quando mudou para a atual Av. Getúlio Vargas, após a compra do terreno da família Ribeiro Coutinho.
Mesmo comprando o terreno, a Igreja Batista enfrentou resistências, política e eclesiástica em João Pessoa, pois a Diocese da Paraíba “boicotava” politicamente as tentativas de instalação no centro da cidade.
A instalação na Av. Getúlio Vargas se deu no pastorado de Firmino Silva, que detém o segundo maior pastorado, e, para se instalar em seu terreno próprio, o pastor Firmino teve que usar de seu prestígio político, uma vez que este era Deputado Estadual, junto ao governador João Fernandes de Lima em que ambos eram maçons.
Essas dificuldades, o próprio Pastor Estevam Fernandes fala quando das celebrações do Centenário da Igreja Batista na Paraíba em 2014.
“Na época, a construção da igreja foi difícil. Foi preciso enfrentar o movimento da Igreja Católica contrário a edificação que era imponente foi muita luta para igreja ser construída”.
“Ele enfrentou movimentos de católicos que defendiam que a igreja fosse desativada e o terreno devolvido para a família Ribeiro Coutinho, antiga proprietária. Hoje, a igreja chega ao centenário e já formou todas as demais da Paraíba”.
Essa co-relação entre a Igreja Batista e a Maçonaria e os Maçons, não é coisa das antigas, em conversa com o Irmão Maçom Rogério Ferreira, que é membro da Primeira Igreja Batista de Mangabeira, este me falou aquela Igreja foi fundada por pastores que eram maçons, inclusive os três primeiros pastores dela foram maçons e que o templo tem muitas característica da maçonaria.
Por curiosidade, fui até a referida Igreja e vi que por fora ela tem todas as características de um templo maçônico, com suas colunas imponentes e a parte superior em fora triangular.
A verdade é que os chamados protestantes, denominação dada pelos católicos, encontraram dificuldades para se estabelecerem no Brasil, e foi graças às ideias progressistas e liberais da Maçonaria que estes encontraram apoio para que pudessem professar sua fé; além do mais, os Batistas americanos eram bem mais liberais que outros grupos religiosos que aqui tentavam se estabelecer, uma vez que muitos deles já vinham de seus países de origem, ou sendo maçons, ou com ideias maçônicas em seu seio.
A prova disso é que os protestantes mantinham o pensamento reformista dos maçons que eram contrários à escravidão e defendiam a ética do trabalho, pregava o trabalho como dádiva de Deus e obrigação do “homem de bem”, valor a ser preservado pela família e que enobrecia a pessoa.
E essas ideias conjuntas fez com que muitos pastores Batistas, fossem maçons, a exemplo de Salomão Ginsburg que foi o responsável pelo primeiro livro de hinos da Igreja batista; o pastor José de Souza Marques que além de maçom, chegou a ocupar o cargo de presidente do Supremo Tribunal de Justiça Maçônico; David Mein, que fundou as Lojas Cavaleiros da Cruz e Trabalho e Liberdade no Rio de Janeiro.
José Salatiel Cordeiro Ramalho
Bacharel em Direito e em História com Pós-Graduação em História do Brasil
Gr.˙. 19
08 de maio de 2022
http://batistasnaparaiba.blogspot.com/2013/01/primeira-igreja-batista-de-joao-pessoa.html
http://jpcultura.joaopessoa.pb.gov.br/espaco/11/
SILVA, Ademar Alves da, A PRESENÇA DA IGREJA BATISTA NO CONTEXTO DO DESENVOLVIMENTO DA CIDADE DE TRÊS LAGOAS – MT (1920-1940). Dourados, MS: UFGD, 2009.
OLIVEIRA, Betty Antunes de. Centelha em restolho seco. Rio de Janeiro: da autora, 1985.

Texto excelente, mostrando a relação da República a Maçonaria e o surgimento das igrejas Protestante no Brasil e em particular na Paraíba, bem como expõe as dificuldade encontradas pelos protestantes de se manterem no Brasil.
Muito bom o texto meu irmão, parabéns !!