A TRAGÉDIA DE MACEIÓ E “NOSSO BOLSO”

Não sei se vocês estão acompanhando a trágica e tragédia que está acontecendo em Maceió com o eminente colapso de UMA das minas da Braskem, onde em pouco menos de duas semanas o solo já afundou mais de 2 metros de profundidade.

Digo umas das minas por que existe ainda outras 34 minas que podem está na mesma situação ou que podem colapsar no futuro.

Mesmo que todos saibam, e espero que saibam o que está acontecendo lá, eu me atrevo a dizer que 99,99% das pessoas não sabem é que quem poderá pagar essa conta financeira e milionária da Braskem, somos todos nós brasileiros. Antes, porém de explicar como que nós iremos pagar a conta da Braskem, vou fazer algumas explicações necessárias para se entender tudo que está acontecendo lá.

Primeiro, temos que saber que a Braskem é uma empresa genuinamente brasileira e sua origem remonta o ano de 1944, no Estado da Bahia, quando foi fundada a Odebrecht, uma empresa ligada ao ramo de construção civil e engenharia.

Com o passar dos anos, a Odebrecht foi crescendo e começou a atuar em outras áreas, como a área petroquímica, e, com isso ela fundou seu braço petroquímico chamada de BRASKEM.

A nova empresa começou a explorar petróleo e minas da sal-gema pelo Brasil, sendo este último na capital de Alagoas desde 1976.

Hoje a Braskem atua em mais de 50 países como subsidiária e como empresa sede nos Estados Unidos, México e Alemanha, sempre no ramo petroquímico.

Em Maceió, a exploração de sal-gema começou já na década de 1960 e a exploração se dá cavando poços que vão a mais de 1200 metros de profundidade, e em seguida injetado água no poço que atinge a camada do sal-gema, este se torna líquido (processo igual ao que se faz em casa quando misturamos sal de cozinha com água), após o sal-gema virar líquido (chamado de salmoura), este líquido é levado para a superfície e separado da água, onde o produto é encaminhado para as fábricas para se fazer soda cáustica, cloro, material de limpeza como um todo, componentes para dinamites, PVC, dentre outros produtos.

Ocorre que em determinadas minas de Maceió, não se sabe ao certo em quais e em quantas, ao retirar o sal-gema, o espaço que ficou vazio deveria ser preenchido com outro produto para que o espaço não ficasse uma “caverna”, um vão, em regra este espaço deveria ser preenchido com areia, ou outro material químico que pudesse manter a sustentação do vão.

Como a Braskem não fez esse preenchimento, muitos desses vãos começaram a se comunicar entre si com a perfuração de outras minas, e, com isso, as camadas de solo acima desse vão começaram a fazer força e ceder por não ter sustentação e com isso surgir tremores de terras como se fosse terremotos e rachaduras nos bairros e casas que ficavam na superfície acima dos vão que foram sendo criados.

Os primeiros tremores começaram em 2018, no governo de Michel Temer, quando três bairros inteiros foram evacuados e a população retirada de suas casas, de livre e espontânea pressão. Alguns receberam indenizações, outros ainda brigam na justiça por indenização.

Mesmo com esse colapso em 2018, as minas continuaram a ser operadas e exploradas pela Braskem nos 4 anos do governo Bolsonaro e nesses quase 12 meses do governo Lula, só sendo suspensa agora no final de novembro de 2023 quando outros bairros começaram a ser afetados e a população obrigada a evacuar a área, deixando suas casas e comércio para trás.

Até agora os bairros de Bebedouro, Bom Parto, Pinheiro, Mutange e Farol foram evacuados completamente, além da proibição da pesca e circulação de embarcação na Lagoa do Mundaú, atingindo diretamente uma população de mais de 60 mil pessoas que moravam nesses bairros, isso sem contar funcionários da própria Braskem que estão sem trabalhar por causa das interdições das áreas da empresa que podem colapsar a qualquer momento.

Feito isto, passemos ao segundo ponto: a situação econômico-financeira da Braskem.

Hoje, acredita-se que as dívidas da Braskem, só com bancos, giram em torno de US$ 5 bilhões, algo em torno de R$ 24 bilhões, se pegarmos a cotação atual do dólar.

Com o colapso do final de novembro de 2023, os órgãos ambientais a nível municipal, estadual e federal, já aplicaram multas à Braskem que somam mais R$ 72 milhões.

Valem lembrar, que a situação da empresa se complicou muito com os processos de delação premiadas da Operação Lava Jato, o que levou a aplicação de elevadas multas para a Odebrecht e a própria Braskem, e muitas delas não foram pagas ainda e com a situação atual, complica mais ainda às já somadas dívidas existentes.

Os próprios balancetes da Braskem apontam elevadas dívidas de difícil solução a médio e longo prazo; levando-se em conta que a sua maior acionista, a Odebrecht que detém 38% das ações da Braskem (atual Novanor) está em processo de recuperação judicial, uma medida que as empresas buscam para evitar a falência por causa de dívida elevadas, ou seja, a Novanor já está endividada também e podendo ser decretada a sua falência, o que levaria ao colapso financeiro total da Braskem.

Como solução dos problemas financeiros, a Braskem passou a diminuir seus investimentos para tentar diminuir as dívidas e com isso renegociar com seus credores, o que não surtiu muito efeito, tanto que a Novanor (Odebrecht) colocou suas ações na Braskem à venda e recebendo uma oferta de US$ 2,1 bilhões (R$ 10,3 bilhões) da Empresa Nacional de Petróleo de Abu Dhabi (Adnoc). Resta saber se depois desse colapso de novembro a oferta será mantida.

Lembro ainda que a própria Novanor não aceitou a proposta que foi feita, agora ela pode ter dado um tiro no pé ao não aceitar.

Se pegarmos os novos processos com a evacuação dos novos bairros em Maceió, as dívidas da empresa irão aumentar consideravelmente, e, os interessados não irão comprar uma empresa atolada em dívidas e com outras já em processo de serem iniciadas.

O terceiro ponto, é o que tem a ver com todos nós e com o descaso dos governos.

Como falei, os problemas em Maceió começaram em 2018, ou seja, quase ou mais de 5 anos de problemas de forma clara, sem contar que a empresa já atua na área desde 1976 e os governos nada fizeram nesse tempo todo.

Acima eu disse que 38% das ações da Braskem pertencem à Novanor, 24% pertencem a pequenos investidores que não tem nem direitos a votos nas Assembleias da empresa, e, os outros 36% pertencem a nada menos que a Petrobrás, isso mesmo, pertencem a nossa gigante petrolífera.

Se a Petrobrás, que detinha 36% e com direito a voto, nunca soube desses problemas, é por que ela nunca ficou ciente da situação por não participar das reuniões de acionistas ou por saber de tudo e ficar silente e recebendo seus lucros nesses 40 anos de exploração da Braskem.

Como dito e visto, nem Michel Temer nos seus pouco mais de 2 anos de governo, nem Jair Bolsonaro nos seus 4 anos de governo, nem Lula nesse quase 1 anos de governo, recebiam essas informações da Petrobrás ou se recebiam, ficavam calados, uma vez que o próprio governo se beneficiava com os lucros obtidos na exploração que a Braskem realizava, até então.

Aqui faço um parêntese para dizer que, segundo dados do Tribunal Regional Eleitoral de Alagoas, os dois candidatos ao Governo Estadual mais bem votados naquele Estado, receberam da Braskem R$ 320 mil e R$ 200 mil nas eleições de 2022, e segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral, as doações ultrapassam os R$ 3 milhões para todos os políticos no Brasil.

Como visto, os políticos nada fizeram, pois receberam recursos da Braskem para financiar suas campanhas políticas.

Por fim, e diante do que foi explicado acima, não acredito que a Adnoc de Abu Dhabi vá manter a oferta de compra dos 38% das ações da Novanor, pois se assim comprar, irá herdar as dívidas já existentes e as dívidas que estão por vir, além de não ter, no Brasil, a grande renda da Braskem que são as minas da sal-gema em Maceió, ou seja, irá comprar uma empresa que não pode operar?

As dívidas da Braskem irão cair no colo dos 24% de acionistas minoritários, pois a Novanor que detém 38% não terá como pagar, pois, a mesma já se encontra em situação mais que delicada com suas dívidas próprias e com sua recuperação judicial comprometida, sem ao menos saber se consegue arcar com suas dívidas e se livrar da falência eminente.

Além dos acionistas minoritários, temos os outros 36% pertencentes a Petrobrás, a maior e mais rica empresa brasileira e a única do Mundo com capacidade e tecnologia de explorar petróleo em águas profundas.

Acredito que quando essa conta chegar, a Braskem irá pagar via acionistas minoritários e Petrobrás, e acredito mais, a Petrobrás não irá ficar com esse prejuízo para seus acionistas e em especial o Governo Federal.

Para repor o que vai perder com as dívidas da Braskem, a Petrobrás irá repassar essas despesas para todos nós brasileiros que abastecemos nossos carros, motos, ônibus, caminhões e que compramos gás de cozinha todos os dias.

A conta virá!

Assim, não nos assustemos se vermos essa cobrança a nós nas placas dos postos de combustíveis de todo o Brasil num futuro não muito distante.

Nos preparemos!

E a este, espero que essas previsões do final deste texto, estejam erradas, mas a nossa História me faz crer que se concretizarão.

José Salatiel Cordeiro Ramalho

Gr.˙. 30

09 de dezembro de 2023

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