Conversando com um Irmão Maçom sobre a morte de Sua Majestade, a Rainha Elizabeth II ele me falou: “A rainha morreu, e agora?”
E Agora? A primeira questão que temos que levar em consideração é que tudo na Monarquia e especialmente na Monarquia Britânica é a TRADIÇÃO, e esta tradição é muito forte na Inglaterra e entre os ingleses, tanto que mesmo os países que eram colônias da Inglaterra e mesmo após a independência destas colônias, elas continuam fazendo parte da Commonwealth, uma associação de 56 países com mais 2,4 bilhões de pessoas e que foram colônias da Inglaterra e mesmo assim continuam tendo o monarca inglês como sua autoridade e em 14 desses 56 países, o rei ou rainha da Inglaterra continua sendo a chefe de Estado, mesmo que estes países tenham governos independentes, um exemplo importante é o Canadá.
Outro ponto considerável é que esta mesma tradição diz que “APÓS A MORTE DO MONARCA, O SEU PRIMOGÊNITO SE TORNA REI IMEDIATAMENTE”, e isso não quer dizer que ele já pode usar a Coroa Real, a maior joia da comunidade inglesa, pois há todo um trâmite legal para que isso ocorra.
Os trâmites começam com confirmação da morte do monarca e a seguir começa a preparação do corpo que leva em torno de 2 a 3 dias de preparação para um velório que pode durar de 10 a 15 dias no Palácio de Buckingham; em paralelo a tudo isso as bandeiras devem ser colocada a meio mastro e o novo monarca já passa a ser reconhecido pelo Primeiro Ministro como sendo o chefe de Estado e tendo seu “novo nome” adotado, no caso do Príncipe Charles ele escolheu Charles III, mas ele poderia ter escolhido um desses CHARLES PHILIP ARTHUR GEORGE (seu nome verdadeiro) e se for o caso é autorizado a mudança na letra do hino Nacional, onde no caso da rainha Elizabeth II era “God Save the Queen” (Deu salve a Rainha) e com Charles III será “God Save the King”(Deus salve o Rei).
Ato seguinte é a comunicação oficial para todos os países da Commonwealth e ocorrendo várias salvas de tiros de canhões por várias cidades de todo o Reino Unido e da Commonwelth com luto oficial de duas semanas, nesse período quase nada funciona.
No terceiro dia de luto o novo rei é proclamado rei em uma cerimônia chamada de Conselho de Adesão onde será lido a Proclamação Principal.
A cerimônia do Conselho de Adesão começa com a reunião do Conselho Privado que é composto pelo próprio rei, pelo Primeiro Ministro, membros do gabinete de ministros, juízes, representantes da Commonwealth e o líder da oposição; este Conselho é composto por 700 pessoas e ocorre no Palácio de Saint James.
Esta cerimônia é dividida em duas partes, onde na primeira parte o rei não participa e o lorde que preside o Conselho anuncia a morte do soberano e proclama o novo rei; a seguir o Secretário do Conselho faz a leitura da Proclamação de Adesão que deve ser assinada por todos os presentes; após a assinatura, o lorde proclama algumas ordens e determina que se faça a disparada das armas no Hyde Park e na Torre de Londres, local onde a Coroa Real fica guardada.
Na segunda parte, já com a participação do novo rei, o monarca faz sua declaração pessoal sobre a morte de seu antecessor e aprova as ordens que foram determinadas pelo lorde na fase anterior, a seguir assina seu juramento de preservar a Igreja da Escócia.
Passada esta fase, o Conselho de Adesão faz a leitura da Proclamação Principal na varanda do Tribunal do Convento do Palácio de Saint James ao som de trombetas e durante a leitura da Proclamação, as bandeiras devem ser elevadas a altura máxima do mastro e após o término da leitura recolocada a meio mastro, ficando assim até o término do luto, e esta Proclamação é encaminhada para os países da Commonwealth para que seja lindo em até 24 horas em suas terras.
Passada esta fase, o corpo deve ser encaminhado ao Palácio de Buckingham onde começa realmente o funeral para os súditos, para as autoridades internacionais, convidados e chefes de Estados, estes também convidados.
O interessante que o as autoridades internacionais e chefes de Estados que devem ser convidados não é determinado pela Família Real, e sim pelo Parlamento que emite os “passaportes de convites”, ou seja, se alguma autoridade de algum país não for convidada, é por que a tal autoridade não é bem quista pelo Parlamento inglês.
Outra questão de atualização automática é quanto aos demais integrantes diretos da Família Real que ascendem a títulos dos antecessores, a saber: o Rei Charles III era o Príncipe de Gales e automaticamente este título vai para o primeiro herdeiro na linha de sucessão Príncipe William que era o Duque de Cambridge passa a ser Príncipe de Gales e o título de Duque de Cambridge passa para seu filho mais velho, no caso o Príncipe George.
Também tem “rotatividade” nos títulos femininos, pois a Princesa Diana era detentora do título de Princesa de Gales por ter sido a esposa do Príncipe Charles, detalhe é que ela mesmo após sua morte não perdeu o referido título, só perdendo agora para a sua nora a esposa de William que deixa de ser Duquesa de Cambridge para ser Princesa de Gales.
No caso de Camila Parker Bowels e Catherine Middleton (Kate Middleton), esposa de Charles e William respectivamente, estas serão apenas Rainha Consorte, isso quer dizer, no bom português, que elas nunca serão rainhas com poderes iguais aos de Elizabeth II, pois eles não veem da linhagem real e estarão nesta condição de rainha apenas por questão de casamento.
Aqui aproveito para uma peculiaridade: dificilmente nós veremos uma rainha tal qual Elizabeth II, pois isso só poderá acontecer novamente em caso de uma catástrofe que mate todos os homens da Família Real inglesa ou se o primeiro filho do Príncipe George seja uma menina, uma vez que a sequência atual é Charles, William e George, sendo a mulher mais próxima a assumir a Princesa Charlote e para esta assumir estes três anteriores teriam que morrer, o que dificilmente ocorrerá, tendo em vista que as leis inglesas proíbem que eles façam viagens no mesmo veículo.
Passada essas questões, todas de âmbito “administrativas”, o funeral está acontecendo normalmente e o corpo será direcionado para a Abadia de Westminster passando pelas ruas de Londres em uma carruagem puxada por marinheiros da Marinha Real com o silêncio sendo rompido apenas por salvas de tiros de canhões.
Na Abadia, a cerimônia será conduzida pelo arcebispo da Cantuária e depois de 10 dias o corpo que não vai para um cemitério comum, cabe ao monarca quando vivo escolher onde será enterrado, no caso da Rainha Elizabeth II, esta escolheu ser enterrada na Capela da Saint Jorge, onde estão enterrados seu pai o Rei Jorge VI, sua mãe, a Rainha Elizabeth e a sua irmã a Princesa Margareth; o corpo de seu esposo, o Príncipe Philip, está enterrado na Capela do Memorial do Cofre Real e será encaminhado para ficar ao lado do corpo de Elizabeth II.
Terminado o velório, começa os preparativos para a cerimônia de coroação do novo Rei, que só a partir daí irá usar a Coroa Real APENAS NA CERIMÔNIA DE COROAÇÃO, depois da cerimônia a Coroa volta para a Torre de Londres e só será usada novamente na próxima coroação do próximo rei.
Assim como a cerimônia do enterro, a cerimônia de coroação será na Abadia de Westminster e conduzida pelo arcebispo da Cantuária.
O interessante é que a cerimônia de coroação pode durar meses ou até mais de um ano para ocorrer; no caso de Elizabeth, seu reinado começou do dia 6 de fevereiro de 1952, mas ela só foi coroada no dia 2 de junho de 1953; no caso de Charles III, pode ser que a coroação aconteça de forma mais rápida e assim como a cerimônia de Proclamação, acredita-se que a Cerimônia de Coroação seja transmitida pela televisão, algo que seria a primeira vez em toda a monarquia inglesa.
José Salatiel Cordeiro Ramalho
Gr.˙. 21
10 de setembro de 2022
