A REVOLUÇÃO CONSTITUCIONALISTA DE 1932

Muitos não irão se lembrar do significado do dia 09 de julho de 1932, mas vou avivar a nossa memória; lá pelos idos dos nossos 15 ou 16 anos quando éramos alunos do Ensino Fundamental e o Ensino Médio, hoje denominado de Ensino Fundamental 2 e Ensino Médio.

Lá naqueles idos era comum ouvirmos nas aulas de História nossos professores e professoras de História ministrar o conteúdo sobre a REVOLUÇÃO CONSTITUCIONALISTA DE 1932 em São Paulo.

Era comum ouvirmos dos nossos Mestre que o referido levante havia sido exclusivamente para impor ao Governo Federal sob a batuta de Getúlio Vargas que este fizesse uma nova Constituição para nosso país.

É bom salientar que essa não é a verdade verdadeira para os fatos, senão vejamos.

Para uma melhor compreensão precisamos voltar aos anos 1888 com a abolição da escravatura e em 1889 quando da Proclamação da República fato que, apesar de liderado pelo Marechal Deodoro da Fonseca no Rio de Janeiro, mas teve participação ativa da elite do Estado de São Paulo que eram na época os grandes cafeicultores.

Estes cafeicultores, desejosos por mais espaço político na República haviam adotado, para eles, a chama POLÍTICA DO CAFÉ-COM-LEITE, método em que os Estados de Minas Gerais com suas fazendas de leite e São Paulo com suas fazendas de café se revezariam a cada quatro anos par indicar o Presidente da República que seria eleito para os próximos anos.

O descontentamento veio nas eleições de 1930 quando o Presidente Washington Luiz que era paulista e deveria indicar o seu substituto que seria de Minas Gerais não o fez como combinado e resolveu quebrar o acordo e indicar o paulista Júlio Prestes que era do Partido Republicano Paulista para seu sucessor.

Descontente por ter sido deixado de lado, Minas Gerais buscou outros candidatos que pudessem fazer páreo a Júlio Preste de São Paulo, e este candidato, mesmo de forma fraco, estava na figura do um gaúcho chamado Getúlio Dorneles Vargas.

Vargas já era candidato de forma independente, ou seja, sem chances de ganhar devido a polarização entre Minas Gerais e São Paulo.

A “coisa” começou a mudar com a opção de São Paulo por Júlio Prestes ao invés de indicar um de Minas Gerais, como deveria ser; com isso, Getúlio começou a abocanhar apoio de parte dos fazendeiros de Minas Gerais que estavam descontentes com Washington Luiz, mas lhe faltava alguém que pudesse ser seu vice e assim pudesse puxar apoio de outros Estados da Federação.

A solução encontrada, juntamente com o paraibano e influente lá no Rio de Janeiro Epitácio Pessoa, foi, como se diz no interior da Paraíba, JUNTAR A FOME COM A VONTADE DE COMER e com isso indicar o paraibano João Pessoa para ser o vice de Getúlio.

Neste capítulo, nós tínhamos como Presidente (Governador) da Paraíba na época o paraibano de Umbuzeiro, João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque que estava fazendo uma gestão POLÍTICO-ECONÔMICA excelente e acima de tudo uma política de favorecimento à arrecadação de tributos dos grandes oligarcas produtores de algodão, fato este que desgostou os latifundiários que não queriam pagar seus impostos assim como os industriais de Recife que compravam e vendia seus produtos na Paraíba sem pagar os impostos devidos, ocasionando aqui a Revolta de Princesa sob a liderança do “coronel” José Pereira.

João Pessoa criou as chamadas COLETORIAS DE IMPOSTOS nas divisas da Paraíba, recebendo com isso o apelido de “JOÃO CANCELA”.

Essas oligarquias paraibanas queriam tirar João Pessoa do governo do Estado, mas não tinham como fazer de forma legal e a Revolta em Princesa Isabel já estava demandando vidas, tempo e dinheiro.

Assim, astuto politicamente como era, Epitácio Pessoa começou a costurar um “acordo” para que as oligarquias paraibanas e industriais pernambucanos apoiassem uma chapa para Presidente da República composta por Getúlio Vargas para Presidente e o paraibano João Pessoa para vice e assim João Pessoa teria que renunciar ao cargo na Paraíba deixando o Estado livre para o coronelismo paraibano voltar a comandar o Estado como era antes.

Paralelo a estes fatos, João Pessoa tinha como desafeto pessoal um advogado chamado João Dantas que sua família era adversária política da família e João Pessoa; João Dantas teve seu apartamento invadido pela polícia paraibana “à mando de João Pessoa” com o intuito de desmoralizar o advogado e sua família que faziam oposição ao Governo de João Pessoa.

Dentre os documentos que foram apreendidos e divulgados, havia uma correspondência íntima entre João Dantas e a professora Anayde Beiriz, sua namorada na época; o fato é que ao divulgar a correspondência, o governo do Estado havia praticado algo inaceitável para a época, que era expor a vida íntima das pessoas.

João Dantas, descontente com os acontecimentos jurou vingança ao governador, e o desfecho foi no dia 26 de julho de 1930 na confeitaria Glória na cidade do Recife onde João Dantas atirou e matou João Pessoa.

Voltando ao cenário nacional, a eleições para Presidente foram realizadas em 1º de maço (como era na época) e como resultado teve a vitória do candidato de Washington Luiz de São Paulo, Júlio Prestes, sendo Vargas e João Pessoa derrotados e a partir desse fato começou a se espalhar pelo país que as eleições foram fraudulentas e que deveriam ser anuladas.

De 1º e março à 26 de julho as críticas ao processo eleitoral foram se acentuando até que em 26 de julho, com a notícia de que o candidato a vice de Getúlio Vargas havia sido assassinado em Recife, passou-se a espalhar que o assassinato havia sido um crime político com a anuência do Governo de Washington Luiz.

Com isso, o corpo de João Pessoa passou a ser um símbolo das eleições fraudulentas e a desfilar em várias capitais do Brasil, e Getúlio Vargas apoiado por grupos militares oriundos do movimento Tenentista de 1922 com a tomada do Forte de Copacabana no Rio de Janeiro e 1924 com a formação da Coluna Prestes de São Paulo, transformou o assassinato de João Pessoa em um crime político para derrubar Washington Luiz e impedir que seu sucessor Júlio Prestes assumisse o poder.

Esse fato culminou com a Revolução de 1930 em 03 de outubro de 1930 que levou Getúlio Vargas ao poder como Presidente da República de forma provisória até que se fizesse as mudanças necessárias para o Brasil ter a sua normalidade, inclusive com uma nova Constituição.

Chegado o ano de 1932, Vargas não havia feito nada que prometera quando assumiu interinamente e suas medidas estavam favorecendo apenas os setores militares que o havia apoiado seu “golpe” em 1930 para chegar ao poder, inclusive com críticas de que Vargas estava com pretensões de se manter no poder e não realizar a eleições em 1934.

Com este cenário e acontecimentos, em 09 de julho de 1932 o Estado de São Paulo e notadamente a cidade de São Paulo resolveram se armar e patrocinar um levante estadual contra o Governo Vargas.

Além do argumento de que Vargas queria se perpetuar no poder, uma vez que ele não havia escolhido a Assembleia Constituinte para elaborar a Nova Carta do país, tivemos outros fatores que fizeram São Paulo tomar a dianteira no levante.

O primeiro, como se pode perceber com os fatos narrados acima, é o protagonismo político que São Paulo desfrutava desde a Proclamação da República; o Estado era o maior exportador de café do mundo com a maior balança comercial do país e isso lhe dava vantagens econômicas e consequentemente prestígio político.

Dentro ainda deste processo, Vargas era quem estava nomeando os governadores dos Estados, uma vez que não tínhamos Constituição e assim não tínhamos eleições e Vargas nomeava os chamados Interventores, que eram em regra militares.

Como já havia descontentamento em São Paulo, Vargas nomeou para o Estado um civil chamado Pedro Toledo, assim como também prometeu a nomeação da Constituinte e de um novo Código Eleitoral para o ano de 1933; estas promessa e ações não conseguiram diminuir o descontentamento local.

Assim, o Partido Democrático e o Partido Republicano Paulista se uniram e formaram a Frente Única Paulista contra Vargas.

Outro fator que determinou o levante foi a morte dos estudantes Mário Martins de Almeida, Euclides Miragaia, Dráusio Marcondes de Sousa e Antônio Américo Camargo de Andrade que faziam manifestações contra o governo federal e sua morte surgir a sociedade secreta MMDC para combater o governo.

O movimento começou a contar com apoio de outros Estados descontentes com o governo e a apoiar o levante paulista.

O importante de se destacar é que o levante contou com apoio da sociedade paulista com o alistamento de homens e mulheres par atuar direto e indiretamente no conflito, além das elites paulistas terem doado joias para a aquisição armamento e material bélico para o conflito.

Os insurgentes de São Paulo tiveram apoio também dos industriais do Estado, porém, a superioridade do Governo Federal e a falta de adesão dos grandes Estado como Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Minas Gerais fez com que o governo Vargas suplantasse o movimento em 1º de outubro de 1932 com uma estimativa de que houve mais de 600 mil mortes de ambos os lados.

Mesmo o movimento paulista tendo sido suplantado pelas tropas federais, politicamente ele foi bem-sucedido, uma vez que o governo Vargas apressou e conseguiu formar a Assembleia Constituinte que foi dominada pelos políticos do Partido Republica no Paulista e tivemos nossa Constituição promulgada em 1934; outra vitória paulista foi a nomeação de Armando Sales de Oliveira para ser interventor em São Paulo e este adotou uma política benéfica aos cafeicultores do Estado, inclusive com perdão e escalonamento de dívidas dos mesmo; outro fator deste período, foi que no governo Armando Sales, este fundou a Universidade São Paulo (USP) que passou a ser referência em todo o Brasil.

Assim, a Revolução Constitucionalista de 1932, foi mais que um levante, foi o primeiro chamamento do povo (homens e mulheres) para ir às ruas lutar, literalmente, contra o Governo Federal e suas práticas e tentativas de se perpetuar no poder.

José Salatiel Cordeiro Ramalho

Gr.˙. 21

09 de julho de 2022

Este post tem um comentário

  1. Thiago Cavalcante

    interessante perceber a relação que a paraíba teve com as revoluções de 30 e 32, tendo em vista que tudo começou com o assassinato do então a candidato a vice de Getúlio Vargas o politico regional Joao Pessoa.

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