A MAÇONARIA ADONHIRAMITA

Antes de adentrar diretamente no tema, gostaria de mencionar três datas importantes para chegarmos a Maçonaria que a conhecemos hoje.

A primeira é o ano de 1717, pois foi a partir desta data, na Inglaterra, que quatro Lojas se reuniram no dia 24 de junho, na Taberna “O Ganso e a Grelha”, que ficava no adro da Igreja de São Paulo e ali resolveram se unir e fundar a Grande Loja, cunho objetivo era fazer uma festa anual entre estas quatro Lojas; ocorre que em 1721, o comunicado para tal festa se espalhou por outras cidades da Inglaterra e na referida festa houve o comparecimento de representantes de várias Lojas espalhadas pelo país e a partir daí a festa foi ficando mais encorpada de Lojas das mais variadas regiões a cada ano.

A segunda data é o ano de 1723, esta segunda data advém exatamente do grande impulso que foi o ano de 1721, pois com o crescimento do número de Lojas que passaram a fazer parte da festa em 24 de junho, houve a necessidade de se criar um sistema normativo para organizar o sistema maçônico, e, assim, foi criado por, James Anderson, um documento que logo ficou conhecido como Constituição de Anderson, que buscou estabelecer a autoridade da Grande Loja. Aqui, faço um parágrafo para lembrar que esta Grande Loja ainda não é a Grande Loja Unida da Inglaterra, pois esta só viria a surgir em 1813, quando os Antigos e Modernos resolveram se unir, porém, isso foi possível por que em janeiro de 1813, o Duque de Sussex se tornou Grão-Mestre dos Modernos, e, em dezembro do mesmo ano, o Duque de Kent se tornou Grão-Mestre dos Antigos, onde ambos faziam parte de mesma linhagem familiar, e assim formou-se a Grande Loja Unida da Inglaterra.

Por fim, a terceira data importante é o ano de 1725, pois foi a partir daí que, diante da organização que já estava operando na Inglaterra, viu-se a necessidade de se criar o Grau de Mestre Maçom, que só seria inserido no sistema de Graus de forma definitiva em 1738, uma vez que as Lojas só trabalhavam no grau de Aprendiz e Companheiro onde se buscava o aperfeiçoamento moral e intelectual através dos estudos com as ferramentas dos antigos construtores.

Importante lembrar, que mesmo tendo sido na Inglaterra o surgimento de tais movimentos, o pioneirismo ficou mesmo por conta da Escócia e França, uma vez iremos ter, mais conhecido os ritos com denominação Escocesa e a Franco-Maçonaria.

Se na Inglaterra tivemos como grande expoente James Anderson com sua Constituição, na Escócia teremos Pierre Aumont que era Cavaleiro Templário e Robert de Bruce, rei escocês que junto com Pierre foram os heróis na luta de independência da Escócia e assim fazer surgir o chamado Escocismo na Maçonaria; na Alemanha teremos o Barão Karl von Hund, que irá ser o idealizador do Rito Alemão ou Rito de Schröder; na França teremos dois expoentes principais, Louis de Travenol, que em suas obras usava o pseudônimo de Leonard de Gabanon defendendo a tese de construção do Tempo de Salomão e a lenda de Hiram Abif, e Jean-Baptiste de Willermoz que irá basear seus estudos maçônicos na Ordem dos Cavaleiros Eleitos do Universo ou Cavaleiros dos Ellus Cohen, que era baseado na Estrita Observância Templária, fazendo surgir a partir de 1754 o Regime Escocês Retificado ou Rito Escocês Retificado.

Assim, com os estudos de Travenol, surge na França um dos sistemas de graus mais estruturados com 25 graus que em 1773 ficou conhecido como Rito de Heredom ou Rito de Perfeição que irá dá origem aos demais graus dos outros Ritos, inclusive do Rito Escocês Antigo e Aceito, o mais praticado no Brasil, que inicialmente contava com 25 grau.

Coincidências ou não, a parti de 1717, teremos o surgimento do Rito York inglês, o Rito Alemão ou Rito de Schröder, o Rito Moderno ou Rito Francês e o Regime Escocês Retificado ou Rito Escocês Retificado, além de outros quase cem ritos maçônicos que foram praticados até por volta de 1800.

Feito estas considerações, destaco que em 1740 Louis de Travenol, com seu pseudônimo de Leonard de Gabanon, publicou um trabalho intitulado Catéchisme des Francs-Maçons (“Catecismo dos Franco-Maçons”, em tradução livre), onde este falava da “Hisstoire d´Adonhiram Architecte du Temple de Salomon” (“História de Adonhiram, Arquiteto do Templo de Salomão”, em tradução livre). Há quem diga que este trabalho foi publicado em 1744, mas a data mais certa teria sido em 1740.

Neste trabalho, Travenol denomina Hiram-Abif como sendo Adonhiram, o arquiteto responsável pela construção do Templo do Rei Salomão.

Neste sentido, temos duas correntes, uma defendida por Alec Mellor de que Adonhiram era apenas o encarregado das corveias, ou seja, daqueles que trabalhavam de forma gratuita, quando da construção do Templo do Rei Salomão; a segunda corrente defende que Adonhiram era simplesmente Hiram-Abif, e que fora inserido em seu nome o prefixo hebraico “ADON”, que em tradução livre teria como significado “SENHOR”, e assim, AdonHiram-Abif, teria se tornado Adonhiram, ou Senhor Hiram-Abif.

Temos também que destacar a atuação do Barão Théodore de Tschoudy que escreveu Recueil Précieux de La Maçonnerie Adonhiramite (“Compilação Preciosa da Maçonaria Adonhiramita”, em tradução livre). Théodore buscou reduzir os graus existentes até àquele momento, onde, segundo ele, deveriam existir no máximo quinze graus, devendo ser excluído tudo que não fosse fidedigno com as tradições maçônicas da antiguidade.

Assim, teria surgido na Franco-Maçonaria, a chamada Maçonaria Adonhiramita ou comumente conhecido no Brasil como Rito Adonhiramita. Neste sistema maçônico, originário na França em 1782 com a obra “Coletânea preciosa da Maçonaria Adonhiramita” de Louis Guillermain de Saint-Victor abrangia os quatro primeiros graus, onde ele acrescentava o grau quatro com a denominação de Mestre Perfeito e que assim a Maçonaria simbólica estaria completa em quatro graus.

E, em 1785 a obra foi completada com os Altos Graus do Rito, passando a contar com um sistema de doze Graus, sendo três simbólicos e nove filosóficos.

Com a difusão desta obra, o Rito Adonhiramita passou a ser praticado em toda a França e em suas Colônias pelo mundo e sendo o Rito preferido dos partidários de Napoleão Bonaparte; mas, a partir da queda de Napoleão do governo francês em 1815, inclusive por ser considerado um Rito que estava atrelado aos partidários de Napoleão e com o crescimento do Rito Moderno ou Rito Francês, o Rito Adonhiramita começou a retroceder sua prática, chegando a deixar de ser praticado na Europa e nas Colônias francesas a partir de 1820.

Enquanto o Rito Adonhiramita entrou em decadência na Europa e nas Colônias Francesas, para nós brasileiros, o este Rito tem dupla importância, a primeira é que, após o seu adormecimento na Europa e nas Colônias Francesas, o Brasil foi o único país que preservou sua pratica na Lojas, não o deixando morrer por completo e preservando-o na sua quase integridade desde seu surgimento mantendo-o inalterado e sendo feito apena pequenas alterações desde então.

A segunda importância para nós, segundo Nicola Aslan, é que foi no Rito Adonhiramita, introduzido no Brasil em 1815 no Oriente do Rio de Janeiro com a Loja Comércio e Arte que surgiu a potência Grande Oriente Brasileiro ou Grande Oriente Brasílico ou ainda, Grande Oriente Brasiliano em 1822, a primeira potência brasileira e reconhecida pela Grande Loja Unida da Inglaterra.

Faz-se necessário ressaltar que em 30 de março de 1818, Dom João VI, governante brasileiro, emitiu o Alvará Régio Lesa Majestade em que proibia o funcionamento de qualquer sociedade secreta no Brasil, diga-se de passagem, proibindo o funcionamento da Maçonaria regular no Brasil, retornando as atividades maçônicas em 1821.

A fundação do Grande Oriente do Brasil se deu em 17 de junho de 1822 a partir das Loja Comércio e Artes, União e Tranquilidade e Esperança e Nictheroy, sendo esta primeira fundada e capitaneada por Joaquim Gonçalves Ledo.

Para a fundação do Grande Oriente do Brasil era necessário a adesão de três Lojas, e assim a Loja Comércio e Arte permaneceu com suas Colunas trabalhando normalmente e alguns irmãos saíram dela para fundar as Lojas União e Tranquilidade e Esperança e Nictheroy, sendo esta última no Oriente de Niterói, todas no Estado do Ri de Janeiro; bom lembrar que o Grande Oriente do Brasil ficou como potência única no Brasil até 1927, quando houve a primeira cisão com o surgimento das Grandes Lojas no Brasil e posteriormente, foi fundado os Grandes Orientes Estaduais (COMAB – Confederação Maçônica do Brasil) em 1976.

Por fim, nos dias de hoje há uma tentativa de se “importar” o Rito Adonhiramita para Portugal e assim ele deixar de ser praticado apenas no Brasil como é atualmente.

Se o Rito Adonhiramita irá voltar para a Europa, ainda não se sabe; o que se sabe é que, especialmente dentro do Grande Oriente do Brasil e na Confederação Maçônica do Brasil e em algumas Grandes Lojas dos Estados da Federação, ele é bastante fortalecido e sendo considerado o segundo Rito mais praticado pelas Lojas no Brasil na atualidade e mantendo sua ritualística quase inalterada.

José Salatiel Cordeiro Ramalho

Bacharel em Direito e em História com Pós-Graduação em História do Brasil

Gr.˙. 21

12 de junho de 2022

Este post tem um comentário

  1. Chrystian Revelles

    Mano José, não foi a EOT que veio dos Elus Cohens, mas pelo contrário, Willermoz que inspirou-se na EOT para fundar os CBCS

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