Antes de mais nada, gostaria de dizer que não tenho formação em economia e as informações e opiniões aqui expressadas, são oriundas do meu conhecimento histórico, que é bastante pouco, e do que vejo no dia a dia.
Desde o dia 20 de janeiro de 2025, quando houve a posse de Donald Trump com presidente dos Estados Unidos, o que se tem visto nos noticiários são as ameaças com deportações e o plano tarifário para sua gestão, que começou a ser implementado no final de março e início de abril.
Muitos economistas cometam que as medidas são prejudiciais para a economia mundial, o que de fato pode e deverá ser, se levarmos em consideração elementos históricos.
Inicialmente, este “filme” não é novo; é um filme, cujo enredo pode ter o mesmo final da sua primeira versão, e não foi um final tão feliz assim.
Tudo teve início com a crise do Império Austro-Húngaro no início dos anos 1900; nesse período, os países europeu passaram por uma crise de falta de liderança, o que vai influenciar diretamente com a eclosão da Primeira Guerra Mundial de 1914 a 1918.
Terminada a Primeira Guerra Mundial, os países afetados saem do conflito com seus territórios, população e economias totalmente destruídas e sem recursos suficientes para a reconstrução. A solução “encontrada” foi a criação da Liga das Nações, que viria a se transformar nas Nações Unidas após a Segunda Guerra Mundial, para que estas buscasse fortalecer a união e cooperação da Europa na sua reconstrução.
No início dos anos 1920, ao países europeus começam a apresentar índices econômicos bastante consideráveis para quem tinha passado por uma Guerra tão castra trófica, em boa parte com uma certa ajuda dos Estados Unidos, que começa a entrar no cenário mundial por ter ficado de fora do Conflito e principalmente por ter implementado um programa de financiamento industrial em seu território, em especial com a eletrificação, o que fez com que a indústria produzisse mais em menos tempo, o que causou um “bum econômico” em seu território.
Com isso, empresas europeias, viram uma forma de buscar lucros do outro lado do Atlântico expandindo sua atuação em vendas e investimentos; como forma de proteger sua economia em ascensão, o governo americano passou a adotar uma série de medidas protecionistas à economia local.
A fim de obter a proteção local, o presidente Warren Gamaliel Harding, juntamente com o Congresso Americano, aprovou em 1922 a Lei Tarifária Fordney-McCumber que aumento as tarifas sobre todos os produtos importados para os Estados Unidos.
Como forma de se proteger dessa medida, a Liga das Nações se reuniu para combater a política protecionista dos Estados Unidos e com isso ficou determinado que os países só poderiam pagar suas dívidas ou reparações através do ouro, serviços ou bens, sendo que o único meio de pagamento disponível, na época, era na forma de bens.
Com isso, os países passaram a tomar medidas tarifárias em represália às medidas dos Estados Unidos para tentar aumentar seus bens, fato que fez com que a produção americana começasse ficar “retida” em seu território, que não era grande o suficiente para consumir toda a produção no seu mercado interno.
Como forma de resolver o problema que estava em crescimento, em 1929, o senado Reed Smoot de Utah e o Deputado do Oregon Willis Hawley defenderam a criação da Lei Smoot-Hawley, que aumentava ainda mais o protecionismo sobre a indústria local em detrimento às importações.
Na época, mais de mil economista americanos fizeram uma petição ao presidente Herbert Hoover para que impedisse a aprovação da referida Lei, uma vez que seria muito prejudicial para a economia americana, pois as tarifas de quase 40% sobre os produtos importados aos Estados Unidos iriam soterrar a economia local levando-a a um colapso em pouco tempo.
As ponderações feitas pelos economistas foram em vão e, as consequências foram devastadoras para a economia americana e do mundo como um todo, pois cada país começou a implementar mais e mais a sua própria política protecionista em retaliação às medidas americanas.
Assim, as medidas fizeram com que mais de 25% do comércio mundial fosse afetado, onde cada país tomava suas próprias medidas protecionistas, gerando conflitos regionais na Europa e açodando mais ainda o comércio interno dos Estados Unidos com a falta de mercado consumidor, o que gerou uma queda econômica global e A Grande Depressão que culminou com a Quebra da Bolso de Nova York.
Entre os anos de 1929 e 1932, a lei levou a redução de 30% no volume mundial de importação e exportação e, em paralelo houve uma retração de 40% de exportações e importações dos Estados Unidos, ou seja, os comércios locais produziam mais, mas não tinha mercado para absorver sua produção local em nível mundial.
Como solução, as indústria começaram uma política de demissões para equilibrar sua produção e consumo, notadamente nos Estados Unidos, causando um grande desequilíbrio, ainda maior, na economia local e prejudicando ainda mais os investimentos estrangeiros.
Como resultado de tudo isso, houve a diminuição na cooperação internacional entre os países em todas as áreas e um forte aumento no protecionismo econômico de cada um deles, o que dificultou a busca de cooperação entre as nações e o prolongamento da Grande Depressão, o que atrasou a recuperação econômica mundial e tendo reflexos direto para a eclosão da Segunda Guerra Mundial (1940-1945) com o surgimento de novas potências econômicas e militares na busca de novos mercados consumidores.
Tal qual ocorreu nos anos 1920, poderemos ver este filme se repetir novamente na atualidade se todos os erros forem repetidos com um individualismo de cada nação.
Nos anos de 1920, assim como agora, os países estavam, certos em adotar medidas “retaliatórias” às tarifas americanas; o que ocorre é que naquela época, a meu ver, fizeram de forma errada, onde houve uma exacerbação na proteção local sem a busca de mercados alternativos.
No mundo globalizado de hoje, e até mesmo dos anos 1920, proteger a economia local, não quer dizer fechar-se para todos mercados produtores e consumidores, mas sim, buscar novos parceiros e adotar medidas de reciprocidade.
A meu ver, as medidas protecionistas do Donald Trump tem tudo para prejudicar a sua gestão interna mais que a nível externo e aqui vou dar uma comprovação do que já está acontecendo em território dos Estados Unidos.
As ideias para esse artigo começaram a ser concatenadas e escritas a partir de 02 de abril de 2025 e, já em 05 de abril, ou seja, quando já havia começado a escrever este texto, houve protestos internos nos Estados Unidos contra a política trumpista da “American First” (Primeiro a América), ou seja, já há uma certa insatisfação de uma parcela da população americana contra tais medidas e, quando o povo vai as ruas, é por que a indústria já começou a atuar na elevação dos preços de seus produtos ou começaram a diminuir a quantidade de produtos colocados à venda.
A prova desse cenário de manifestações e insatisfação foi “reconhecida” pelo próprio Donald Trump, que diante das manifestações, foi para sua rede social e pediu “paciência a todos pelos momento que estamos passado”.
Voltando para a “análise” do cenário atual, a economia americana hoje, ela é totalmente dependente mundialmente. Hoje os Estados Unidos dependem de outros países na compra de petróleo, gás, automóveis, peças de veículos, aço, circuitos integrados eletrônicos, mão de obra, dentre outras necessidades que fazem sua indústria funcionar plenamente.
No que tange a política migratória, os Estados Unidos podem sofrem uma grave crise de mão de obra, uma vez que hoje, o setor de serviços, indústria e construção cível são totalmente dependentes da mão de obra estrangeira, em especial a mão de obra latina.
Às restrições migratórias podem impactar diretamente nestes setores, uma vez que os americanos não estão dispostos a assumir essas vagas de empregos da construção civil e ramos como indústria e fabril, onde estas poderão sofrer com a falta de prestadores e assim pressionar o governo para um relaxamento, caso contrário haverá uma redução na produção e consequente encarecimento dos produtos e diminuição no consumo interno.
O outro fator está relacionado diretamente para a política tarifária, uma vez que esta cadeia produtiva americana não é auto suficiente em termos gerais, necessitando de importar gêneros primários para garantir a produção interna.
Só a título de exemplo, a maior indústria americana, a automotiva, só tem duas que são genuinamente americanas que é a Ford Motor e a General Motors e esta última com suas subsidiárias em território americano.
As outras grandes indústrias automotivas americanas como a Dodge, hoje é controlada por grupos europeus que dependem da importação de gêneros para manter a produção local, ou seja, essas indústrias poderão sofrer as consequências das altas tarifas quando forem importar os materiais primas necessários para a produção de seus veículos em solo americano.
Se pegarmos as duas genuínas americanas, Ford Motor e General Motors, elas mesmo sofrerão com as tarifas de importação de Donald Trump, pois hoje, com a eletrificação, a General Motors é dependente do mercado chinês em cerca de 70% dos mecanismos de produção em suas fábricas americanas, ou seja, a General Motors irá pagar mais caro para receber gêneros da China, o que, com certeza, irá impactar diretamente no preço do carro local americano da marca.
A outra grande americana Ford Motor reduziu sua produção mundial com fechamento de fábricas em diversos países e hoje só produz seus carros no próprio Estados Unidos, Canadá, México, China, Inglaterra, Alemanha, Turquia, Uruguai e Austrália.
Em termos de eletrificação, ela fica dependente de importar gêneros, tal qual a General Motors e, mesmo assim, no setor de carros a combustão e elétricos, a Ford Motor produz no México o Bronco Sport, Maverick, Mustang Mach-E, Ford Fiesta, Ford Fusion, Ford Mustang, Lincoln MKZ.
De todos esses modelos produzidos no México, apenas o Ford Fiesta não se destina ao mercado dos Estados Unidos, ou seja, se o México adotar um modelo tarifário de reciprocidade, a Ford Motor nos Estados Unidos irá sofrer consequências gravíssimas com os carros que importa do México, o que diminuiria seu lucro ou esta teria que aumentar o preço de seus produtos em território americano.
Se formos pegas essas questões tarifárias no Brasil, em tese, as medidas de reciprocidade do Brasil, são benéficas, se forem bem sucedidas, pois não basta só a reciprocidades.
A reciprocidades poderá funcionar como uma forma das grandes indústrias americanas pressionarem o governo Trump para relaxar o tarifaço dele, pois se pegarmos o caso da Ford Motor que deixou de produzir no Brasil e hoje dependemos da importação para manter seus altos lucros aqui em nosso território, onde hoje ela lucra muito mais do que quando produzia seus carros em Camaçari, na Bahia.
Imagine que se elevarmos as taxas de importação para veículos americanos, a Ford Motor teria que elevar seus produtos no Brasil a um patamar mais alto, o que faria com que ela diminuísse suas vendas por aqui e, para não sofrer com isso iria pressionar seu governo a um relaxamento em relação ao Brasil.
O outro fator, e foi esse que faltou nos anos 1930, é que os países que foram afetados devem buscar o seu protecionismo, mas sem se isolarem, buscando outros parceiros comerciais.
A meu ver, cada país deve adotar o seu protecionismo contra a política tarifária de Trump e, ao mesmo tempo, buscar novos parceiros econômicos e comerciais onde possam se consolidar comercialmente em mútua cooperação.
Por sua vez, essa consolidação fará com que haja uma retração econômica em território americano, sem grandes consequências a nível mundial como foi nos anos 1929 e seguintes.
Por fim, lembro-vos, mais uma vez, que não sou economista e minhas observações se restringem apenas e tão somente para análises de conhecimentos históricos na expectativa de que os erros do passado não se repitam, em especial no nosso mundo tão mais globalizado de hoje.
José Salatiel Cordeiro Ramalho
Gr.˙. 32
06 de abril de 2025
