O MODISMO DOS CARROS ELÉTRICOS NO BRASIL

Nossa Capital da Paraíba é uma cidade pequena e que não temos muitas rendas e isso pode ser comprovado se formos buscar informações nos institutos de pesquisa como IBGE e IDEME, onde a renda per capita da Capital paraibana gira em torno de R$ 964,82.

Falo esses dados para dizer que não basta andar muito por nossas ruas e ver o quanto de carros de luxo e acima de tudo de carros elétricos que já temos circulando por aqui.

A verdade é que carro, nos dias de hoje, é objeto de luxe mesmo, e não falo luxo de valores cômodos não, pois seus valores hoje tornam-se impossível um mero mortal comprar um carro novo, como tivemos em décadas atrás.

Mas aqui, quero apenas falar no MODISMO que o brasileiro tem, especificamente na nossa cidade, e isso é fato com a proliferação dos carros elétricos em nossa cidade e nosso Estado, pois creio que a “febre dos elétricos” já chegou em outras cidades também.

Para falar desse modismo automotivo no Brasil eu vou voltar à década de 1980, pois naquela década era comum você ver pelas ruas do Brasil como um todo, apenas carros de carroceria HATCH (sem bunda como diziam antigamente) e estes eram ainda de três portas (duas laterais e uma traseira – tampa do porta malas).

Lembro que muitos diziam não querer carros de cinco portas (quatro laterais e uma traseira), pois eram carros de bandidos; isso se explica por que os assaltantes de bancos da década de 1970 (durante o regime militar) preferiam as Veraneios da Chevrolet de cinco portas que facilitavam a entrada e saída dos veículos em suas incursões no mundo do crime.

Essa onde perdurou até próximo da metade da década de 1990 quando Fernando Collor de Melo chegou à Presidência da República, e, em suas palavras “os carros do Brasil eram verdadeiras carroças”, confesso que, a meu ver, ele tinha razão.

No final de 1991, ele e sua equipe econômica implementaram uma série de medidas que visava reformar nossa tropa automotiva, que contava com as montadoras Fiat, Volkswagen, Ford e Chevrolet, não havia outras montadoras por aqui em nossas terras.

Com a abertura econômica do Governo Collor, tivemos uma verdadeira enxurrada de novas montadores se instalando no Brasil, tais como Renault, Peugeot, Mitsubishi, Honda, Toyota, Isuzu, dentre outras de menor volume de vendas.

Com a vinda dessas montadoras, o Brasil passou a ter uma febre de carros novos e novos carros com novas tecnologias que foram barateadas ao longo do tempo, a exemplo disso foi o ar condicionado automotivo, que só existia em carros premium e que vinham ao Brasil por meio de encomendas dos ricaços como eram chamados os consumidores desses modelos.

Outra inovação desse período, foi a introdução definitiva dos carros de cinco portas que virou febre em nosso território tupiniquim.

A onda foi tão avassaladora que a própria Volkswagen teve que fazer pequenas alterações na plataforma do Gol, seu carro mais vendido, para em 1997, começar a fazê-lo em cinco portas, o famoso Gol Bola.

Hoje, creio eu, não temos nenhum carro sendo fabricado em nosso país com opção das três portas, posso estar enganado, mas creio não existir mais.

Passado modismo do carro de cinco portas, tivemos o modismo dos carros sedan, e mais uma vez houve uma enxurrada de modelos do tipo, sendo agregados também ao modismo anterior de serem sedan e cinco portas.

A moda do sedan foi tão promissora que a Volkswagen, sempre ela no pioneirismo, “ressuscitou” o seu modelo sedan, o Voyage que havia reinado sozinho por muito tempo depois que a Ford Motor tirou o Corcel de linda nos anos 1980.

A onda do modismo do carro sedan foi tão grande que a Toyota resolveu fabricar pela primeira vez seu modelo sedan fora do Japão, coisa que nunca havia feito em nenhum mercado do Mundo, e para isso escolheu o Brasil.

No início dos anos 2000, com a economia Mundial passando por dificuldades, a indústria automotiva começou a sentir os reflexos da recessão uma por cima da outra em escalada mercadológica que atingia um ou mais países por vez.

Para salvar a Empresa da falência eminente, a Ford Motor Company nos Estados Unidos solicitou que suas subsidiárias nos demais países começassem a desenvolver produtos locais e que pudessem ser adequando a mercados globais, e com isso, na Espanha nasceu o conceito chamado de New Edge, onde os carros da marca do oval azul americano passou por uma verdadeira tapa no seu visual com planos largos se cruzando com arcos, superfícies tensas e linhas muito nítidas.

Com o conceito New Edge, a Ford criou carros que tinham seus modelos “exportados” para outras fábricas em outros mercados, como o Fiesta e o KA que vieram da Espanha e passaram a ser fabricados no Brasil por logo tempo.

Só que os mercados globais exigem e exigiam que as marcas estejam sempre inovando para não ficarem para trás diante da concorrência, e para isso, a Ford Motor no Brasil, havia mudado sua base de produção do ABC Paulista para a planta inovadora de Camaçari na Bahia; foi exatamente nesta planta de produção que os engenheiros brasileiros do oval azul americano desenvolveram um conceito ainda inexistente no mercado automobilístico, o de SUV Compacto.

Foi assim que nasceu o Eco Sport, um carro que abrangia tudo para atender todos os públicos de todas as idades.

Aqui faço um parênteses para lhes relatar o modismo que era ter um Eco Sport na época; lembro que eu era professor e tinha um Fox da Volkswagen e um tio meu tinha uma Frontier na Nissan, certo dia ele não pôde levar a Frontier para revisão e pediu para que eu fosse trabalhar nela e de lá quando saísse para almoçar deixasse na autorizada para a referida revisão; ao chegar e parar a Frontier na frente do colégio, alguns colegas de trabalhos vieram com a piada de que eu “O HOMEM ESTÁ RICO, NESSES DIAS ELE VAI CHEGAR AQUI NUM ECO SPORT”; na época um Eco Sport custava em torno de R$ 50.000,00 (cinquenta mil reais) e uma Frontier em torno de R$ 110.000,00 (cento e dez mil reais).

Então o modismo era tanto que as vezes um Eco Sport era mais “status” que um carro mais caro e mais confortável.

Com a chegada do Eco Sport, todas as marcas começaram a desenvolver seu SUV, o que fez com que carros hatch e sedan começassem a sobrar no mercado; e, mais de 90% da produção automotiva hoje no Brasil se concentrar nos modelos de SUV´s, tanto que algumas marcas, para não ficarem para trás, criaram versões “esportivas” de seus modelos existentes para tentarem se passar por SUV, a exemplo o Fox da Volkswagem com a versão Cross Fox, ou versão “aventureira” como eles chamavam, como também a Fiat com suas versões Adventure.

Chegando ao presente, mais precisamente em 2023, temos o modismo do carro elétrico, pois a cada dia aumenta a visualização desses modelos circulando nas ruas da nossa capital.

A “invasão” chinesa, deixou de ser apenas no centro da cidade com as lojas “xing ling”, agora está nas ruas com os carros elétricos ou eletrificados.

O que me questiono é até quando vai durar o modismo dos carros elétricos, uma vez que os modismos anteriores sempre “mataram o modismo antecessor; e, no caso dos carros elétricos, tenho algumas ressalvas a fazer.

Creio eu que este modismo não terá vida longa, espero está errado; mas senão vejamos.

Hoje os carros totalmente elétricos prometem uma autonomia de ATÉ 320 quilômetros rodados, ou seja, saindo de João Pessoa, vai-se até a cidade do Patos. E, ao chegar em Patos? Pelas pesquisas que fiz, a baterias dos carros elétricos hoje duram em torno de oito horas para serem recarregada.

Para quem vai para Cajazeiras ou mais longe tem que fazer as contas para viagem…

Feitas as contas acima, vem o segundo ponto, temos “postos” para recarregar as baterias nas demais cidades?

O carro elétrico veio para ficar? Acredito que sim, mas nosso modismo está colocando o carro na frente dos bois, literalmente.

Ásia e Europa já se preparam para a eletrificação automotiva há mais de dez anos, lá já é possível abastecer o carro elétrico ATÉ EM SUPERMERCADO e HOSPITAL, dado o avanço tecnológico deles que não começaram de agora.

Aqui confesso que não sei onde abasteceria e abastece um carro elétrico em nossa cidade, muito menos sei como procede para tal.

Outro fator que esses dois continentes avançaram muito também tem a ver com a mentalidade e a qualidade de vida por lá.

Lá passagem de avião é como uma passagem de ônibus por aqui, todos viajam de avião dentro do seu país, pois as passagens aéreas são de preços acessíveis, o carro é um “objeto” para ir ao trabalho e não viajar; a depender do país ou da cidade, o meio de transporte é a bicicleta.

Outro fator que existe em grande abundância na Europa e Ásia é a consciência da população em utilizar como meio de transporte de média longa distância através dos trens, o que facilita a circulação de grandes números de pessoas.

Por incrível que pareça, estes dois meios de transportes não são tão bem difundidos para o transporte de pessoas nas Américas como um todo, tanto que se pegarmos, nos Estados Unidos e Brasil as ferrovias são mais de 90% exclusivamente para transporte de carga.

Aqui não podemos ter esta mentalidade pelo simples fato de que viajar de avião é meio que uma “coisa para rico”, dado o valor das passagens aéreas e também pelas rotas de aviações, muitas vezes estressantes e extenuantes.

Certa vez eu estava em São Luiz no Maranhão, região Norte, e para vir para João Pessoa eu tive que ir para Brasília, também na região Norte, depois pegar um voo para São Paulo, região Sudeste, depois novo voo para Recife, região Nordeste, e por fim mais um voo para João Pessoa, saí de São Luiz às 12:00 e cheguei em João Pessoa às 04:00 da manhã do dia seguinte.

Com essa logística, afasta as pessoas dos aeroportos e este viajam de carro mesmo, o que faz com que o carro seja o meio de transporte mais utilizado para viagens curtas e até mesmo longas em algumas situações.

Aqui na Paraíba não temos voos nem para Campina Grande ou Patos, tem que ser por via terrestre mesmo, de livre e espontânea pressão.

Se formos analisar a eletrificação automotiva que tem ocorrido no Brasil, é exclusivamente por montadores asiáticas, o que faz com elas se beneficiem com um bom naco no mercado, já que as grandes da Europa e Estados Unidos não estão ainda na eletrificação de sua produção.

Dado o ineditismo dos chineses nesse campo, eles vão lucrar um pouco por causa do modismo que temos.

O Grupo Volkswagen que é composto por Volkswagen, Audi, Seat, Skoda, Bentley, Bugatti, Lamborghini, Porsche, Jetta, Ducatti, Scania, Neoplan, Traton, Man, International e IC Bus; Grupo Fiat composto por Abarth, Alfa Romeo, Fiat, Lancia, Maserati, Iveco, Autobianchi, Ferrari, Chrysler, Dodge, Jeep, Fyber, Peugeot e Citroën; Grupo General Motors com as marcas Chevrolet, Buick, GMC e Cadillac; Grupo Ford Motor com as marcas Aston Martin, Volvo, Jaguar, Mazda, Land Rover, Lincoln e Troller, em nenhuma de suas subsidiárias já aderiu a fabricação de carros totalmente eletrificados.

A meu ver, esses quatro grupos que atendem mercado baixo e emergentes, não veem ainda a eletrificação como um método viável, financeiramente, para fabricar e vender carros em mercados como nas Américas e bom parta da Europa.

Vejam que dos quatro Grupos citados, dois ficam na Europa e dois ficam na América, e são grupos centenários de atuação na fabricação de veículos a combustão.

As estimativas desses quatro Grupos é de que eles vão levar entre cinco e dez anos para poder fabricar carros totalmente elétricos, uma vez que eles consideram a tecnologia cara e ainda rudimentar, fato que falei no início do texto com a duração curta das cargas de baterias dos carros hoje totalmente elétricos.

Fora dos chineses, aqui no Brasil a Renault foi uma das pioneiras para a fabricação de um carro totalmente elétrico com o Kwid E-Tech e o Megane E-Tech, onde estes veículos saem por valores de entrada na casa de R$ 139.990,00 e R$ 279.900,00, respectivamente.

Se você pegar esses valores praticados em um Kwid e um Megane, imagine qual carro de luxo você consegue comprar com tal valor, variando de um Corolla até chegar numa Hilux, sem contar outros modelos de luxo e requinte; lógico que dado a qualidade e tipo de carro, o investimento vai ser melhor em um carro de luxo, e vale lembrara que as baterias desses carros prometem rodar até 300 quilômetros.

Assim, leitores, o modismo do carro elétrico está aí nas ruas, cabe agora pensamos duas coisas: na minha viagem longa, coo farei para abastecer? E, como vai ficar o mercado de carros elétricos usados nos próximos dez anos?

Perguntas que espero ver e poder responder na próxima década.

José Salatiel Cordeiro Ramalho

Gr.˙. 30

20 de dezembro de 2023

Este post tem 4 comentários

  1. Juarez de Oliveira Nóbrega

    O futuro próximo é dos veículos movidos a hidrogênio, não tenho dúvida. Bateria é mais poluente do petróleo. A tecologia de armazenamento de energia em bateria teve pouco avanço. As baterias ocupam muito espaço, com peso significativo, elevado tempo de recarga impeditivo ao uso do veículo, sua vida útil limitada além do elevado valor de substituição. Diante das inconveniências funcional dos veículo movido a bateria, os grandes grupos das montadoras estão reticentes em investir neste seguimento veicular. Atentos aos avanços tecnologicos da produção do hidrogenio e a facilidade de uso desse combustível , as grandes montadores estão investido em pesquisa de tecnoligia de veiculos movidos a hidrogênio.

    1. sramalho

      Meu nobre Juarez, você sintetizou o que pretendo falar em breve que é o hidrogênio, inclusive no tocante a ser menos poluiente que as baterias elétricas.

  2. Edinaldo Soares da Silva Pereira

    Bom dia.
    Salatiel é um grande pensador, escreve acerca de problemas atuais com críticas construtivas.
    A temática acerca dos carros elétricos, entendo que a problemática maior passa, também, pelo descarte das baterias desses veículos, pois não basta só a devolução aos fabricantes ou importadores se não sabemos como vai ser o gerenciamento do enjeitamento dessas baterias usadas. Mesmo porque de uma coisa temos certeza ele vai se dar em solo brasileiro, ou seja, mais uma vez os países ricos ficam com o lucro e nós com o lixo, que traz o risco à saúde humana e ao meio ambiente.
    Edinaldo Soares da Silva Pereira. Grau 15.

    1. sramalho

      Isso é verdade meu Irmão Ednaldo, o descarte, em breve, irá gerar uma carga de poluentes no meio ambiente nunca visto antes, tal qual se falava nos pneus nos anos 1980 e 1990.

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