Durante o mês de julho de 2022 em uma das várias reuniões maçônicas que já presenciei, fui à Loja Gonçalves Ledo Nº 18 em Cabedelo, chegando à rua indicada pelo meu Irmão Matheus Souza, Aprendiz de grande qualidade daquela Oficina, não achei o prédio da Augusta Loja; depois da segunda passagem pela rua, deparei-me com um senhor transitando por esta e resolvi perguntar-lhe se ele sabia onde ficava a Loja Maçônica Gonçalves Ledo, a parte hilariante foi a resposta que o senhor me deu.
– “A loja eu não sei onde é, mas a igreja dos maçons é aquela ali na esquina”.
Essa frase tão singela mostra apenas uma das mais variadas formas como a Maçonaria é vista pelas pessoas que não conhecem a realidade do que seja a Maçonaria.
Para alguns, é uma religião, tendo vertente politeísta, como o senhor acima citado; para outros trata-se de uma seita; para outros uma sociedade secreta de homens ricos; para outros é um grupo de homens machistas que não aceitam mulheres; e, para outros, um grupo de homens que as pessoas não se sabem o que eles fazem.
Em termos, as definições acima têm um certo grau de certeza, pois, em que pese sermos monoteístas, aceitamos irmãos das mais variadas e variantes religiões possíveis e assim, de certa forma, tendo um viés politeísta, pois todas as religiões são bem-vindas; no que tange a questão de seita, esta não prospera, apenas reside na mentalidade de algumas pessoas menos afortunadas de conhecimento; para aqueles que dizem que é uma sociedade secreta, eu apenas digo que onde há algo secreto se as Lojas Maçônicas existem a céu aberto e todo cidadão pode entrar e ver como são por dentro? Para aqueles que acham que somos homens ricos, dou meu próprio exemplo, que sou rico apenas de conhecimento e saúde; para os que acham que as mulheres vivem à margem da Maçonaria, lhe digo que as mulheres participam sim! Pois, elas estão ao nosso lado nas ações filantrópicas desenvolvidas pelas Lojas e até mesmo no consentimento de seus esposos para o ingresso na Ordem, estão juntas através das Fraternidades Femininas, além de que temos as Filhas de Jó, que é uma organização exclusivamente para as filhas dos maçons; por fim, para os últimos, espero que este texto possa lhes mostrar quem realmente somos.
Pois bem, depois desta introdução um tanto quanto longa, mas necessária, lhes digo que a Maçonaria é mais antiga do que se possa imaginar e atrevo-me a dizer que ela é mais antiga que a própria Igreja Católica à qual temos em mente que seja a mais antiga em funcionamento.
Para a maioria dos estudiosos da Maçonaria, a sua história se divide em duas fases: a Maçonaria Operativa e a Maçonaria Especulativa; mas há uma minoria que defende a existência de uma terceira fase, que seria definida como Maçonaria Primitiva e que esta seria mais antiga que as duas outras fases mais difundidas.
No que tange ao período da Maçonaria Primitiva, há quem defenda que esta remonta aos primórdios do surgimento da humanidade na Mesopotâmia (hoje território do Iraque); outros acreditam que remontam ao Egito Antigo dos faraós e suas práticas religiosas; uns outros acreditam que vem da época dos caldeus também na região do que hoje é o território do Iraque; e, por fim, àqueles que acreditam ter início na construção do Templo de Salomão.
Há ainda àqueles que defendem que remonte ao tempo de Noé com as práticas, técnicas e métodos usados por ele na construção da Arca e na escolha dos pares de animais, a mando de Deus.
Historicamente falando, quanto a este período, não temos documentos que possam embasar esta tese e comprovar sua veracidade, pois no período em questão, ainda não havia sido difundido a escrita e até mesmo a prática de fazer tais registro para a posteridade não era utilizado.
O que podemos afirmar com certa exatidão é que a Maçonaria adota para seus praticantes, a quem denominamos de IRMÃOS, os princípios e conteúdos filosóficos milenares que serviram de base para o surgimento de instituições como as Guildas na Inglaterra, as Compagnonnage na França e a Steinmetzen na Alemanha, aqui, faço o adendo para que se observem que a Maçonaria Especulativa teve raízes nestes três países.
Essas três classificações acima têm a mesma definição que são corporações de ofícios surgidas para regulamentar determinadas profissões e defender seus associados por uma melhor qualificação na prestação de certos serviços de cada uma delas e que a Maçonaria passou a adotar tais princípios, o que fez surgir o segundo período que ficou denominado de Maçonaria Operativa.
Nesta segunda fase que predominou durante a Idade Média, a Maçonaria ganha mais um viés para o significado da palavra MAÇOM em francês, uma vez que em tradução literal deste termo seria PEDREIRO.
Nesta fase, os estudiosos remontam sua origem a Roma antiga e citam duas vertentes: uma seria as antigas Collegia Fabrorum, guildas comandadas pelos soldados romanos e a outra seria a guilda dos pontífices que eram os construtores de pontes dado sua importância para os romanos na construção de pontes e consequente expansão do território. Neste segundo ponto, lhes afirmo da importância dos pontífices que tal título passou a ser adotado pele Igreja Romana para denominar àquele que dirige a Igreja Católica na sua autoridade máxima, ou seja, o Papa.
Durante a Idade Média, a guilda dos pedreiros era a mais prestigiada que existia; os que faziam parte desta Guilda, gozava de um certo privilégio dentro da sociedade e seu ofício não era passado para qualquer um, pois seus “associados” gozavam até do privilégio de ir e vir, e para tanto, os segredos da profissão era meio que mantido apenas entre os associados.
A guilda dos pedreiros ganha maior ênfase com o declínio do Império Romano por volta do ano de 476 d. C., pois começou a crescer o poder dos nobres e estes necessitavam da mão de obra dos pedreiros para a construção de seus castelos medievais.
Nesse período, surgiram outras guildas como de artesãos, ferreiros, marceneiros e tecelões que formaram suas corporações de ofícios em que elas implantaram a divisão de classes em aprendizes, jornaleiros e mestre.
Paralelo ao surgimento destas Guildas, a dos pedreiros era a que mais crescia na Europa Medieval se constituindo numa força militar e econômica a partir das construções de fortificações que ficaram atreladas aos Cavaleiros Templários, que na França passam a usar com mais frequência o termo de COMPANHEIROS e adotar o companheirismo para o trato entre seus membros e a buscar a servir a Deus na proteção dos peregrinos que iam para Jerusalém.
Bom lembrar que em regra geral, o termo companheirismo remonta ao cristianismo quando Cristo passou a defender que o pão fosse partilhado com os outros, deixando claro o sentimento de ajuda mútua em todos os sentidos para os seus adeptos.
Neste período, há quem defenda que a Catedral de Notre Dame de Paris, de Reims, Estrasburgo, São Pedro em Roma, Sevilha e Toledo na Espanha, a Abadia de Westminster na Inglaterra foram construções das Guildas dos pedreiros, e portando construídas pelos maçons desta época.
Nesta fase, acredita-se que o documento mais antigo seja a Constituição de York, datada de 926 e que regulava alguns ditames para Ordem dos Maçons; há ainda o Regulamento de 1663; Estatutos e Regulamento da Confraria dos Trabalhadores de Pedra de Estrasburgo; os Manuscritos Harley, Schaw e Kilwinnin que se constituíram como as Old Charges.
Neste iterem, é bom lembrar que, em que pese serem documentos ingleses, não devemos esquecer que na Escócia há ainda mais de 130 documentos tidos como autênticos da existência da Maçonaria em seu território datados de 1600 e que há forte evidência de que o rei escocês Robert de Bruce recebeu ajuda dos Cavaleiros Templários em 1313, sob a liderança de Pierre Aumont para a independência daquele território do julgo inglês.
Por fim, temos a fase denominada de Maçonaria Especulativa, ou fase atual que se baseia no pensamento iluminista do século XVIII e com a ruptura com a Igreja Católica Romana após o declínio do feudalismo e surgimento do mercantilismo, tendo sua maior difusão na Inglaterra notadamente em Londres após o incêndio ocorrido em setembro de 1666.
Após este incêndio, a cidade de Londres passou a ser o berço de um grupo maior de pedreiros que se dedicaram a reconstruir a cidade londrina tal qual era no período medieval; com isso, as corporações que antes buscavam manter o segredo de suas profissões intactas, passou a divulga-las mais facilmente e os estudos de tais ofícios mais acessíveis a todos.
Com a reconstrução da cidade concluída, a partir de 1700, esses membros de ofícios começaram a se reunir em lojas para debater assuntos de relevância social na busca de um melhoramento da sociedade.
Essas reuniões fizeram surgir a ideia que temos hoje de LOJA, e, a partir de 1717 essas lojas passaram a ter organização e estudos sistemáticos para o desenvolvimento de uma organização em busca do aperfeiçoamento moral e intelectual do homem com base no pensamento iluminista e resgate de algumas tradições antigas, notadamente das antigas sociedades iniciáticas do Egito e dos Cavaleiros Templários.
Dessas reuniões, surgiu o que conhecemos como Rito York na Inglaterra, Rito Schröder na Alemanha e Rito Moderno na França.
Na Inglaterra o movimento ganha força a partir de 1717 quando três dessas lojas se reúnem na taverna o Ganso e Grelha no átrio da Capela de São Paulo para celebrações e ali firmam que todos os anos em 24 de junho elas deveriam fazer tal celebração de amizade e fraternidade; este fato se espalhou por outros bairros de Londres e cidades da Inglaterra e a cada ano aumentava o número de Lojas ali reunidas, o que fez surgir em 1723 a denominada Constituição de Anderson, primeiro documento escrito da Maçonaria Especulativa que fez expandir para Alemanha e para a França.
Nessas três ramificações o conceito de Maçonaria que conhecemos hoje se espalhou pelo mundo, especialmente após a Revolução Francesa com seu trinômio de Igualdade, Liberdade e Fraternidade.
A partir desses acontecimentos, que tivemos a difusão da existência de uma sociedade de homens livres que se empenharam em buscar a liberdade de pensamento, de crença e todo tipo de liberdade que possa existir no seu conceito de ser livre, assim como a busca de se garantir que todos os homens são iguais entre si e como tal deveria desenvolver uma fraternidade justa.
Dentro destes conceitos de Igualdade, Liberdade e Fraternidade, a Ordem foi responsável por liderar movimentos de libertação em todos os rincões da terra e especialmente nas Américas que viviam sob o julgo das potências imperialistas da Europa, tais como a Independência dos Estados Unidos, a Independência da América Espanhola e a Independência do Brasil.
Hoje em dia a ação da Maçonaria anda um pouco apagada, pois as ações filantrópicas que as Lojas têm praticado é bem menor se comparada com anos e séculos passados; em muitos casos é por falta de recursos mesmo, mas em determinadas lojas pontuais, a filantropia fica apagada por razões as quais não faço ideia, uma vez que nesses casos pontuais, as Lojas até têm recursos, mas não fazem.
Ademais, quanto ao pensamento que rodeia a sociedade sobre à Maçonaria, não passa de crendices que foram sendo propagadas ao longo dos séculos e que ainda persiste na sociedade evolucionista atual.
José Salatiel Cordeiro Ramalho
Gr.˙. 21
04 de agosto de 2022

Fantástico, a história da Maçonaria retratada com sensibilidade e muito conhecimento, ímpar, trabalhos perfeitos.
Parabéns pela grande ATITUDE
Sem dúvida um trabalho brilhante, digno do deleite de leitura, sério e elucidativo.
Mais uma bela peça de arquitetura. O irmão está de parabéns