Nas duas últimas semanas o que mais chamou atenção para a mídia foi a súbita notícia de que o apresentador Faustão precisava de um transplante de coração.
Vi pessoas dizerem, até fatos relacionados a uma suposta “teoria da conspiração” pelo fato dele ter saído de uma emissora e ido para outra, assim como também ouvi pessoas dizendo que isso nada mais era que uma jogada de “marketing pessoal”, pura balela e falta de conhecimento de tais pessoas.
A real situação é que o apresentador já vinha com problemas cardíacos há tempos, tanto que em 2018 ele passo por uma angioplastia para desobstruir uma artéria, e na mesma ocasião colocou dois stents no Hospital Albert Einstein.
Em 2018 foi novamente internado no Hospital Albert Einstein para tratar um edema linfático em uma das pernas, onde este passou por sessões de desinchamento da respectiva perna.
Em 2021, depois de mais de 32 anos no ar aos domingos na TV Globo, ele teve que ser substituído pelo apresentador Tiago Leifert, de última hora por causa de uma internação, novamente no Hospital Albert Einstein por causa de uma infecção urinária.
Após esses incidentes o apresentador perdeu muito peso, saindo de 114 kg para menos de 90 kg, o que o fez ser afastado da TV Globo e a consequente não renovação de seu contrato e colocado na “geladeira” por mais de seis meses para “descansar”, fazendo com que ele assinasse contrato com a TV Bandeirantes.
Em cinco de agosto de 2023 foi internado no Hospital Albert Einstein por causa da insuficiência cardíaca e que precisaria passar por uma cirurgia de transplante de coração, a notícia que deixou boa parte da população “chocada”.
Passada essa fase da notícia, noticiou-se que Faustão estaria na lista do SUS (Sistema Único de Saúde) e que ele seria o paciente de número 387 da fila do SUS; algumas pessoas até falaram que ele poderia obter um coração fora do Brasil por uma bagatela de R$ 8 milhões (oito milhões de reais); também ouvi outras pessoas falando que como ele era rico demais iria prevalecer o “jeitinho brasileiro” para furar a fila e assim receber um coração. Essas informações não procedem.
Essa última hipótese ganhou mais força depois que ele ficou apenas seis dias na fila de espera e já recebeu um coração.
Aqui, vou tentar explicar o que realmente aconteceu para ele ter recebido um coração em um tempo tão curto.
A primeira coisa que temos que levar em consideração é que temos transplantes de coração no Brasil todos os dias, inclusive temos casos de transplantes que a pessoa recebeu um coração ou outro órgão em menos de vinte e quatro horas de ser incluso na lista do SUS; o que acontece é que os vários transplantes que acontecem são de “pessoas comuns”, e, no caso de Faustão, por ele ser “famoso” a mídia divulga as informações todos dias ou todas as horas, o que não ocorre com os casos de pessoas comuns.
A segunda coisa que devemos entender é como funciona a logística dos transplantes no nosso país, pois mesmo Faustão tendo sido o “PACIENTE 387”, isso não quer dizer que ele esteja na posição 387 para receber o órgão, pois a fila do SUS não funciona como a fila do Banco ou qualquer outra fila que enfrentamos no nosso dia a dia ou até mesmo como era a fila para as doses das vacinas contra a Covid-19 que era por ordem de chegada.
Em que pese a fila ser controlada pelo SUS, ela é “regionalizada”, meio que POR ESTADO, e essa necessidade de divisão se explica pelas longas distâncias de nosso Brasil e do pouco tempo exigido pelo órgão a ser transplantado, exigindo que haja pequenas distâncias a serem percorrida sem comprometer o órgão a ser transplantado.
Quando acontece um paciente em estado de morte cerebral e a família autorizando a doação de órgãos, pois mesmo a pessoa tendo optado por doar seus órgãos, a última palavra quanto a doação cabe à família do mesmo, e se autorizado começa uma “maratona” de no máximo 5 ou 6 horas, tempo máximo que o órgão a ser transplantado “sobrevive” fora do corpo e mantém as condições de ser transplantado.
Ocorrendo a morte cerebral e autorização da família, a equipe médica do hospital em que está o doador faz a análise das condições daquele doador e avisa ao gestor da lista do SUS para assim verificar qual paciente estaria “habilitado” para receber aquele órgão naquela região, mantendo o doador ligado à maquinas até a chegada da equipe médica de extração; esse procedimento pode ser um pouco mais demorado, uma vez que máquinas mantém a atividade de órgãos essenciais para os procedimentos de retirada e doação.
Feito isto, a primeira coisa que o gestor da lista do SUS faz é verificar o tipo sanguíneo do doador e verificar na lista do SUS daquela região se tem um receptor com aquele tipo sanguíneo; o segundo fator analisado é quanto a faixa etária, e aqui se explica que um coração de um jovem de dezesseis anos não pode ser transplantado em uma pessoa de sessenta anos ou vice versa. Esses dois critérios têm que serem seguidos à risca para preservação da saúde do receptor do órgão e assim não haver risco para a vida e saúde deste que recebeu.
Superado esta fase, o gestor da lista do SUS avisa para a equipe médica do receptor que irá verificar se o seu paciente apresenta condições ideias para se submeter ao procedimento cirúrgico, pois se o mesmo estiver com alguma infecção ou outra complicação, não podendo ser submetido ao procedimento, o órgão será cedido para o receptor seguinte da lista. Lembrando ainda que dentro da lista do SUS existe os casos preferenciais, que são àqueles casos mais graves e que necessitam de um órgão de forma mais urgente.
Estando tudo 100% (cem por cento) entre doador e receptor, então a equipe médica do receptor é dividida em duas: uma vai para o “local de extração”, para retirar o órgão do doador; e a outra equipe inicia o procedimento de retirada do órgão do receptor para que, assim que chegar o órgão a ser transplantado, seja “colocado” no paciente receptor.
Aqui, a responsabilidade das duas equipes são cruciais, pois a equipe de extração coloca o órgão num “saco plástico” com uma solução para manter sua viscosidade e em seguida numa caixa de gelo para ser transportado até o local a ser implantado; por sua vez a outra equipe retira o órgão a ser substituído, deixando o paciente ligado numa máquina que tem a função de manter a qualidade sanguínea, e, aqui, a agilidade das duas equipes tem que ser milimétrica, pois o receptor só resiste por até duas horas sem seu coração e ligado à máquina, superando este tempo, o risco de morte do receptor ultrapassa os noventa e cinco por cento (95%).
Recebido o coração, as duas equipes se unem para o transplante e assim fazer todas as ligações necessárias e assim liberar o novo coração para funcionamento e liberando o paciente da máquina à qual estava ligado.
Feito o procedimento, o paciente receptor continua em observação na Unidade de Terapia Intensiva por setenta e duas horas e se não houver nenhum problema, este é liberado para um apartamento, onde deve permanecer por um período acima de trinta dias, pois estes trinta dias iniciais são de suma importância para verificar se há uma possível rejeição.
Como se pode perceber, o caso de Faustão, ficou mais em tônica e nos colocando a par de todo procedimento, pelo fato dele ser uma pessoa pública, mas esses procedimentos e essa rapidez e agilidade acontece todos os dias várias vezes em nosso país nos mais variados Estados da Federação, infelizmente não tomamos conhecimento desses heróis médicos de transplantes que atuam todos os dias pelo fato de que quase a totalidade de cem por cento (100%) dos pacientes são pessoas comuns que a mídia não está noticiando sobre eles.
Também, fica mais claro o fato de que a fila do SUS pode ser mais rápida pelo fato de ser uma lista NACIONAL, mas que regionalizada pelo fato do pouco tempo que deve ocorrer todo o procedimento e que, mesmo sendo inserido numa lista em um determinado dia, isso não quer dizer que aquele paciente irá ficar messes ou anos na fila a espera de um órgão.
Outro ponto a se destacar é que nos dias de hoje, com a grande conscientização das pessoas e das famílias, temos uma maior quantidade de pessoas dispostas para doações de órgão, o que facilita e muito para que a fila possa andar com mais rápida e ágil.
Assim, não podemos afirmar que no caso de Faustão, houve favorecimento, seja ele qual for, pois a lista do SUS é uma coisa séria e que merece todo o respeito de todos nós cidadãos brasileiros pela seriedade que é a lista do SUS.
José Salatiel Cordeiro Ramalho
Gr.˙. 30
30 de agosto de 2023
