O ALARGAMENTO DA PRAIA DO CABO BRANCO

“Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”. Esse dito popular é mais que verdadeiro, e, se somado ao que diz que “não se briga com a natureza, e quando se briga perde” também é bem cômodo para duas situações que irei enumerar. O primeiro caso é quanto ao alargamento da faixa de areia que ocorreu em Balneário Camboriu em Santa Catarina no ano de 2021; o segundo é quanto as pretensões de nossa Capital João Pessoa com as mesmas ideias da cidade do Sul do País para se alargar a faixa de areia das praias de Tambaú e Cabo Branco e parte da Penha, para que assim se solucione o problema da erosão na Barreira do Cabo Branco.

De logo lhes aviso que eu não entendo nada, e quando digo nada, é nada mesmo de conhecimento técnico quanto aos procedimentos de realização de tais empreendimento como também nada sei dos efeitos ambientais e mais ainda quanto as consequências de tal situação para o futuro próximo e longínquo.

O que irei falar aqui se baseia em informações jornalística, observações minha à vista de apenas um curioso com um certo “dom” de pressentimento, com outras situações que já ocorreram e estão na imaginação dos mais antigos de nossa Capital.

Lembro que quando cheguei aqui em João Pessoa no ano de 1992 conheci as belas praias de nossa Capital e duas praias me chamavam atenção por serem as que mais frequentei: a praia do Bessa onde morei de 1992 à 2012, e a praia de Manaíra, a qual eu passava por ela todos os dias ou vindo do colégio ou do centro da cidade.

Essas duas praias tinham uma faixa de areia de mais de 200 metros, inclusive com vegetações características, incluindo ai plantas rasteiras com espinhos, pois lembro muito bem das vezes que passava descalço por tal faixa para ter acesso a praia e lá chegava com os pés furados de espinhos. Outra situação comum era jogando futebol na praia e quando bola ia parar na faixa de areia e tinha que busca-la, voltava com os pés igualmente cheio de espinhos. Era sofrido, mas valia a pena.

Essa situação começou a mudar gradativamente e a faixa de areia começou a sumir aos poucos e quando menos se esperou ela não existia mais e a água do mar começou a atingir a “calçadinha” da praia de Manaíra, tanto que havia umas plataformas de guarda-vidas feita em concreto na faixa de areia e estas foram todas derrubadas em “engolidas” pela força do mar e hoje nada resta delas.

Já na praia do Bessa, a ação foi mais devastadora, muitas casas que “eram à beira-mar”, ficaram literalmente nesta situação e seus muros e parte de seus jardins foram igualmente “engolidos” pela força do mar. Lembro que os antigos e famosos Clube dos Médicos e Iate Clube da Paraíba, tiveram suas áreas gradativamente degradadas e destruídas, e, para não perderem tudo, acabaram por vender seus terrenos para a especulação imobiliária, hoje nada ou pouco restando destes dois Clubes que eram tão famosos e com suas festas e shows que ali se realizavam.

Tempos depois, ouvi no boca-a-boca da sociedade e de algumas reportagens de jornais, que esse sumiço da faixa de areia com o constante avanço do mar era fruto de duas obras em particular: uma era a construção dos gabiões nas praias de Cabedelo, estes construídos para evitar o avanço do mar naquele município; o outro teria sido a construção do píer próximo ao Hotel Tambaú, uma obra que iria trazer “visibilidade” para a Capital, eu não vi a visibilidade prometida na época, talvez por eu necessitar de óculos e esta visibilidade passou quando eu estava sem usar este singelo e necessário acessório.

O que ouvi foi que essas duas construções haviam causado “um emparedamento” das correntes marítimas, fazendo um corredor e com isso houve um efeito de “prensa” das correntes entre as duas obras, o que fez com que a força do mar se concentrasse nessas duas praias e dali retirou toda aquela faixa de areia que existia.

Lembro ainda que ouvi comentários de pessoas mais antigas de que estas faixas de areia eram muito maiores a tal ponto que se caminhava por mais de 600 metros de areia para se chegar ao mar e que começaram a diminuir quando da construção do Hotel Tambaú, com sua parte dentro do mar.

Aqui lembro que o píer não existe mais, foi engolido pelo mar por falta de cuidados e manutenção; já o Hotel Tambaú está fechado devido a falência do Grupo Tropical e mesmo arrematado há uma briga com a prefeitura da Capital.

Reafirmo que não sei se isso é verdade, mas seria um bom lembrete histórico para se verificar; e, aqui, respondo para alguns que na nossa infância fazíamos aquela famosa pergunta sobre “PARA QUE EU PRECISO ESTUDAR HISTÓRIA, SE EU VOU SER ENGENHEIRO?” ou outra profissão.

Aqui está a resposta da necessidade de saber e conhecer e estudar História, pois se formos resgatar estas histórias que mencionei e outras tantas esquecidas iremos saber as consequências para o futuro de se fazermos o alargamento da praia do Cabo Branco como se tem defendido atualmente, pois as consequências que estamos sofrendo hoje é reflexo e fruto de ações que foram feitas no passado não muito distante.

No caso de Santa Catarina, faço um relato cronológico dos acontecimentos: as obras foram iniciadas no início no mês de setembro de 2021 com um orçamento de R$ 66,8 milhões de reais para alargar de 25para 70 metros em uma distância de aproximadamente 5 km de praia.

A obra foi concluída em 03 de dezembro de 2021, ou seja, de setembro a dezembro foram algo em torno de 3 meses, no máximo, com um valor aos cofres públicos e ao contribuinte em torno de R$ 22,26 milhões de reais por mês.

Não vejo problema se gastar certo ou qualquer valor que seja, se este realmente for em benefício do contribuinte e da sociedade que somos todos nós.

O problema é que, a meu ver, tais obras só servem para favorecimento político e financeiro de determinados grupos que são e estão no poder, seja direto ou indiretamente.

Lá em santa Catarina, dez meses após a conclusão da obra, as praias que passaram pelo alargamento tiveram duas ocorrências; a primeira foi o aparecimento de um paredão de areia que media mais de 2 metros de altura entre a areia colocada e a faixa de água, o que estava dificultando o acesso dos moradores e banhista a parte de banho do mar; a segunda ocorrência foi de que duas pessoas acabaram sendo “sugadas” ao caminharem na faixa que fora alargada e só conseguiram sair da “areia movediça” com a intervenção dos bombeiros, que nem sabiam como fazer para chegar até aquelas pessoas “atoladas” e fazer-lhes o resgate, a solução foi fazer uma fila de pranchas para irem pisando até chegar ao casal “atolado”.

Já no início deste ano de 2023, ou seja, menos de dois anos da obra, as autoridades perceberam que o efeito erosão havia “engolido” algo em torno de 60 a 70 metros de areia que fora colocado para o alargamento da referida praia.

Ontem, dia 10 de junho de 2023, vi mais uma reportagem, e desta vez falando que para recuperar esta área engolida e que foi recuperada em 2021, terá que ter uma nova intervenção e para tal se faz necessário um aporte financeiro de mais R$ 3 milhões.

O interessante é que a empresa responsável pela obra disse que “ESTA OCORRÊNCIA JÁ ERA PREVISTA DE OCORRE”; ora, se já era prevista de ocorrer, como é que a prefeitura vai ter que gastar mais R$ 3 milhões de reais para recuperar a área?

Mais uma vez, não entendo dessa sistemática, mas se já era previsto que iria acontecer isso, eu acho que esta intervenção já deveria está no orçamento dos 22 milhões de reais que foram gastos, e não, o contribuinte ter que pagar mais R$ 3 milhões de algo que já “estava previsto”.

Como se pode ver, lá em Santa Catarina, houve todo um procedimento de estudos de especialista, empresa especializadas, Ministério Público, Curadorias, Secretarias e tudo mais; só que o resultado de todo o conhecimento especializado do homem a natureza está mostrando que não se deve brincar com sua força e fazendo o que ela saber ser, maior que o homem; e pior ainda, tudo isso, ela mostra sua força em um espaço de tempo tão curto que mal se pode dizer que a “garantia” do produto da obra ou serviço teria acabado pois de setembro de 2021 para junho de 2023 são pouco mais de um ano e meio, ou seja, um carro que vale muito menos que R$ 22 milhões de reais tem garantia de três a cinco anos.

Vendo estas experiências, locais, e especialmente a que está em Santa Catarina, que foi considerada “a salvação” daquelas praias que está se mostrando um verdadeiro desastre, para não dizer uma catástrofe, é o que iremos ver no futuro bem próximo aqui em João Pessoa também.

Para nossa Capital João Pessoa, a obra de alargamento e “salvamento” da Barreira do Cabo Branco, segundo alguns portais de notícias, há uma previsão de se gastar algo em torno de R$ 200 milhões de reais, uma bagatela para uma cidade como a nossa onde tudo sobra, menos dinheiro.

Por fim, não estou sendo do contra pelo salvamento da Barreira do Cabo Branco, só acho que certas intervenções se tornam apenas um desperdício de dinheiro do contribuinte que irá se diluído pela água e pala ação da natureza, e dinheiro este que poderia ser empregado em outras áreas mais deficitárias e necessitarias.

Não sei se valeria a pena ter um gasto inicial de 200 milhões de reais apenas para se manter um “título” inexistente e ineficaz de se ter o PONTO MAIS ORIENTAL DAS AMÉRICA.

Ostentar essa situação é bom? Eu digo que sim, mas não podemos pagar um preço alto para se manter uma coisa que não agrega muito valor para aquelas pessoas mais necessitadas, pois vá em qualquer uma das comunidades que existem em nosso Estado e na nossa cidade e perceberemos que muitos não sabem nem o que representa ter o PONTO MAIS ORIENTAL DAS AMÉRICAS.

Espero que, se realizada a obra, eu esteja completamente errado no que estou falando agora, mas a história tem mostrado que não estarei, e nossas gerações futuras, ou até mesmo nós, iremos ver e sofrer as consequências das práticas que estamos realizando agora.

Hoje, se me pagassem para ter um apartamento e morar por até dez anos na orla do Cabo Branco eu recusaria, pois em dez ou vinte anos, no máximo, a calçadinha da orla do Cabo Branco estará intransitável para veículos, dado as intervenções humanas em nossa orla como um todo.

Por fim, queria e quero que eu esteja totalmente errado e que o alargamento seja um sucesso para continuarmos a ter o PONTO MAIS ORIENTAL DAS AMÉRICAS.

José Salatiel Cordeiro Ramalho

Gr.˙. 28

11 de junho de 2023

Este post tem 5 comentários

  1. ALDEMAR Pereira de Medeiros

    Boa tarde!
    Meu dileto irmão, parabéns pelo excelente artigo, trazendo a luz os prós e os contra desse projeto na Orla de nossa amada João Pessoa, na visão de um historiador.
    Fraternal Abraço.

  2. Edinaldo Soares da Silva Pereira

    Parabéns. Vários outros foram escritos e este especialmente falando sobre questões sociais e ambientais. Mostrando a sua preocupação com o que pode acontecer se for levado adiante o plano da prefeitura em alargar as praias urbanas da Capital, e a justificativa dada foi justamente impedir o avanço do mar. Fica, no entanto, para reflexão, esse belíssimo texto do irmão Salatiel Ramalho. T. F. A.
    Edinaldo Soares da Silva Pereira

  3. Edinaldo Soares da Silva Pereira

    Parabéns. Vários outros foram escritos e este especialmente falando sobre questões sociais e ambientais. Mostrando a sua preocupação com o que pode acontecer se for levado adiante o plano da prefeitura em alargar as praias urbanas da Capital, e a justificativa dada foi justamente impedir o avanço do mar. Fica, no entanto, para reflexão, esse belíssimo texto do irmão Salatiel Ramalho. T. F. A.
    Edinaldo Soares da Silva Pereira.

  4. Thiago Cavalcante

    Boas mano, pois é mano brigar com a natureza é sempre uma briga perdida, pessoal tem que aceitar que a natureza precisa do seu espaço e querer para de fazer empreendimento dentro do mar

  5. Ednaldo Paiva

    A preocupação ambiental é muito importante, se faz necessário um estudo aprofundado sobre as possíveis consequências da intervenção, haja visto o que já está acontecendo em Santa Catarina.
    Texto claro e explicativo parabéns

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